As crianças que se lixem

A Maria fez seis anos em Agosto de 2019 e entrou para o primeiro ano nesse Setembro. Estava muito entusiasmada com a perspectiva de aprender a ler e a escrever, descobrir os números. Sucede que, em Março de 2020, uns meses depois, a sua escola fechou. Aulas online nesta idade? A professora fala, fala, pergunta, estimula, interage e, no fim, a Maria diz-lhe: o seu gato é muito bonito. Em casa, os pais têm disponibilidade limitada - entre o teletrabalho da mãe e o fecho do negócio do pai (medidas covid), que o atirou para uma depressão e, de seguida, para uma frustrante procura de emprego, só restos sobram. Dinheiro para explicadores? Não há. Em Setembro de 2020, Maria foi para o segundo ano da escola. Pouco tinha aprendido e o início de 2021 trancou-a outra vez em casa. Novo calvário. Agora, em setembro de 2021, com oito anos, Maria ingressou no terceiro ano da escola. Não sabe escrever nem ler. É analfabeta. Contas de somar lá vai fazendo algumas, gosto pela escola há pouco e adição aos telemóveis há muita. Ainda tinha ginástica num clube perto de casa, mas, após sucessivos abre e fecha, os pais desistiram. Não tem mais grupos de amigos e no prédio poucos falam.

Embora sejam os menos afectados directamente pelo vírus e sejam também irrelevantes na transmissão, como agora reconheceu a DGS (daí a alteração da norma de isolamento nas escolas), os mais novos têm sido os mais prejudicados e sujeitos às normas mais radicais e cruéis. Nestes anos lectivos, as escolas portuguesas do ensino básico já estiveram fechadas cerca de 100 dias, números superiores aos da OCDE. Fora os outros, em que turmas, escolas ou famílias ficaram em isolamento.

Chegámos mesmo à aberração de prisão domiciliária para crianças 14 dias porque um menino da sala ao lado testou positivo. E isolamento profiláctico para cumprir até ao fim, mesmo com teste negativo. Chegámos a barbaridades como encerrarem uma escola inteira ou um serviço de urgência por causa de uma pessoa infectada.

A balança está obviamente desequilibrada - as medidas excessivas prejudicam muito mais a saúde física e mental dos miúdos do que a covid. Todos os estudos internacionais mostram que há atrasos significativos nas aquisições e que os que são recuperáveis não estão a ser resgatados (algumas perdas são irreversíveis). Sublinhe-se também o evidente - as crianças de meios mais desfavorecidos são as que mais têm sofrido. Mesmo quando as escolas estão abertas, muitas outras áreas da vida escolar estão comprometidas, como as refeições, os recreios, as actividades extracurriculares, as visitas de estudo, as reuniões com pais. Da mesma forma, os convívios extraescolares e as actividades fora da escola, como desporto, foram muito afectados. Longe vai a camaradagem, a partilha, a alegria e uma cultura escolar de comunhão e cooperação. Por outro lado, para milhares de crianças a escola era porto seguro, abrigo e refúgio de agregados familiares violentos ou desestruturados, ponto de fuga do abuso sexual, das sovas, gritos e fome. Deixou de ser. Muitas passaram a estar ainda mais encarceradas com os seus agressores. Enfim, as crianças têm sido impedidas de crescer, de se desenvolver. Estão a viver no caos e privadas dos seus direitos. E é enlouquecedor. O que diremos um dia à Maria? Como a compensaremos?


Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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