As casas dos heróis

Oh as casas as casas as casas as casas
nascem vivem e morrem

Ruy Belo

Muitos partilham comigo o gosto de visitar os lugares onde viveram as figuras que admirámos pelas nossas leituras fora e que foram ganhando o seu lugar próprio na câmara escura da nossa imaginação.

Raramente, porém, esses lugares partilham connosco algum sinal de vida verdadeira: já musealizados, preenchidos por móveis, quadros e até objetos pessoais trazidos de outros lugares e contextos, a evocação que nos trazem é documental e memorial, mas falta-lhes demasiadas vezes o rasto embaciado de uma vida.

Alguns objetos, contudo, podem ter ganho uma aura própria, que nos interpela como um inesperado aceno cordial de dentro de um retrato. Assim, a mesa alta em que Eça escrevia de pé, guardada em Tormes (onde ele nunca viveu), diz-nos que escrever é um trabalho, uma luta contra as palavras e contra si próprio, e lembra Nietzsche, que chamava "rabos de chumbo" aos que, como Flaubert, só concebiam trabalhar sentados.

Mais do que nas casas, que vivem e morrem, é nalguns objetos soltos que o admirado autor ou herói que vive nas nossas memórias espera por nós.

A mesa junto à qual se suicidou Camilo, em São Miguel de Seide, atarracada e rotunda, parece carregar sobre si todo o peso do desespero que se segue a uma condenação médica. O fogão de cozinha na casa de Goethe em Weimar fala-nos de uma vida familiar feliz com uma mulher indiferente a letras e glórias, um casal que hoje seria visto com maus olhos pelo feminismo mais estrito (tal como era malvisto na época pela escritora Bettina von Arnim), mas que não consta tenha sido um casal infeliz.

O quarto de Fernando Pessoa, na Rua Coelho da Rocha, terá sido reconstituído segundo as mais fiéis recordações dos seus familiares: mas é um par de óculos, com os seus aros tortos, ali guardado, que vem trazer até nós o olhar distante e vago que de Pessoa merecemos. Na moradia de Keats em Hampstead são as cartas emolduradas de Fanny Brawne que nos ecoam, por entre os móveis e os corredores, a voz sussurrada do poeta.

Na casa de Unamuno em Salamanca (na verdade uma casa de função, onde ele só viveu enquanto foi reitor) qualquer português é forçosamente atraído pelas fotografias dos por ele tão admirados Alexandre Herculano, João de Deus, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro e Soares dos Reis, todas numa só moldura longa que puseram no quarto do autor. Não é preciso ter lido tudo o que Unamuno escreveu sobre Portugal para sentir aqui o seu amor por nós.

Também há casas que nos não fazem qualquer sinal, que estão encerradas na sua morte. São as casas onde verdadeiramente os heróis não viveram. A casa de Napoleão na ilha de Elba nada nos diz, a não ser que o imperador, enquanto lá esteve, só pensava como fugir. A biblioteca que deixou tem todos os clássicos belamente encadernados: não eram para ser lidos e manuseados, eram só para fingir ser uma casa.

É na parte mais íntima dessas "casas que têm história", como dizia José Régio (em casa de quem sentimos a mesma luta agónica com Cristo que vibra em Unamuno), é na biblioteca pessoal que podemos olhar de frente o espírito e o coração de quem lá viveu.

E, às vezes, na biblioteca um pormenor pode acenar-nos com uma informalidade imprevista, qual um sorriso. A biblioteca do poeta é o tesouro da Casa Fernando Pessoa: e, dentro dela, o calendário de aniversários ilustrado que a mãe lhe deixou faz-nos entrar na intimidade que aqueles óculos tristes nos negavam. É de coisas miúdas que se fazem os grandes encontros.

Diplomata e escritor

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