Aristides e a palavra que não dizemos

Merecidamente, o regime democrático prestou por fim tributo a Aristides de Sousa Mendes. Por iniciativa da deputada Joacine Katar Moreira, foi desvendada uma lápide em sua memória no Panteão Nacional. Os líderes de PSD e CDS não marcaram presença, o secretário-geral do PCP e o chefe do Chega também não. IL, Bloco, PS e respetivo governo estiveram. O Presidente e o presidente da Assembleia da República discursaram. Na direita mais saudosista, notou-se um rancor por Aristides ter contrariado ordens e regras emanadas do Estado Novo. Na esquerda mais antissemita, o silêncio foi suficiente para se sentir o desagrado. Entre outros, ouviram-se murmúrios sobre a vida não integralmente exemplar do homenageado, como se os heróis - sendo humanos - fossem geralmente impolutos. Alguns, mais rebuscados, relativizaram os feitos do português pela leveza da sua punição (foi "meramente" suspenso) e pelas consequências dos seus atos não lhe terem pesado durante ou depois destes. Argumentos, há que dizê-lo, ausentes de boa-fé. Aristides salvou vidas. Ponto. Isso deve chegar-nos pelo simples facto de lhes ter chegado a eles, que foram salvos. É o ato que conta. E, no caso de Aristides, o número considerável de vezes que o realizou.

O que Marcelo Rebelo de Sousa recordou, e muito bem, é que a natureza do regime nazi era bem conhecida de todos os povos europeus antes da descoberta, nos finais da Segunda Guerra, dos campos de extermínio. Como disse o Presidente da República, "era já genocídio, por perseguição de comunidades, antes de ser Holocausto". E era. E todos sabiam. A relevância da frase de Marcelo, no contexto geopolítico de hoje, é significativa. O chefe de Estado, observador atento e frequentemente mais interventivo do que o sabido na arena internacional, não a terá dito por acaso.

Nenhuma outra palavra que não "genocídio" provocou tantos ensaios e posições entre agentes de política externa nos últimos dois anos. No último dia do mandato de Donald Trump, o departamento de Estado norte-americano utilizou-a pela primeira vez para se referir aos campos de concentração em Xinjiang, na China, onde uigures são vítimas de violação, esterilização, reeducação e trabalhos forçados. Joe Biden não reverteu essa decisão. Reportagens da BBC, entrevistas do The Guardian e investigações da CNN têm-no demonstrado ao ponto de o parlamento britânico ter neste momento uma comissão de inquérito a decorrer sobre o assunto. Outras publicações defendem que chamar "genocídio" ao que se passa em Xinjiang, o maior enclausuramento étnico desde o nazismo, corresponde a um erro estratégico na relação entre o Ocidente e Pequim. Mais uma vez: quando todos sabem, poucos dizem.

A partir do momento em que a comunidade internacional reconhecesse que a perseguição de uigures representa um "genocídio", a China passaria a ser olhada como um país "não seguro", autora de crimes contra humanidade, e qualquer cidadão seu (de Hong Kong, Macau, Tibete ou Xinjiang...) poderia pedir asilo como refugiado a outro país, ‒ algo que, evidentemente, a China não deseja. E é aí que a síntese de Marcelo - "era já genocídio, por perseguição de comunidades, antes de ser Holocausto" - nos coloca uma questão: um país que presta justa homenagem a quem salvou centenas do genocídio certo pode estar mudo sobre o que se passa em Xinjiang? Queremos receber Xi Jinping com pompa e circunstância e evocar, ao mesmo tempo, o exemplo de Aristides de Sousa Mendes? Não carimbaria ele os passaportes dos 1,2 milhões de uigures detidos contra a sua vontade na China? Não julgaria ele que a neutralidade e o pragmatismo de um país pobre têm os seus limites, quando é de vidas humanas que estamos a falar?

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