Aqui há gato

A quatro dias do fim da campanha, os dados estão lançados e há pouco que ainda nos possa surpreender. A menos que haja, até sexta-feira, algum escândalo, erro colossal ou disparate sem nome.

Os debates, que muitos criticaram e cujo modelo não era perfeito, acabaram por ser úteis e, de alguma forma, esclarecedores. Dos cinco ou seis temas que foram tratados - dezenas de outros ficaram de fora - conseguimos perceber, apesar da gritaria, frases feitas, ideias repetidas e estratégia de pacotilha, o que defendem os principais partidos para a saúde, justiça, impostos, TAP, economia e governabilidade.

Acabados os debates e iniciada a campanha, a substância deu lugar ao folclore, a repetição de ideias e frases feitas fazem o seu caminho, a coreografia das bandeiras e das arruadas compõe as imagens e não há já mais nada de novo para dizer.

O que não foi dito, o que não foi esclarecido, o que não foi debatido, já não o será. E passamos de alguma discussão de ideias para um imenso vazio de conteúdo, de duas semanas a apostar na forma e na mobilização, à procura do melhor sound bite, do sorriso mais simpático, da imagem mais icónica.

Até Sócrates teve o cuidado de entrar na campanha, dizendo que não entraria, no último dia útil da primeira semana. Ainda deu uma ajuda ao partido, a ver se os eleitores, entre sexta dia 21 e domingo dia 30, se esquecem do que disse. Continua socialista, vai votar no PS em nome dos amigos que deixou no partido, mas recordou que já não é militante, não tem nenhuma relação com a direção do partido e lamenta a forma como "a atual direção", na ótica dele, também alinhou no que chama a "condenação sem julgamento".

Costa, que jurou não ter visto a entrevista, escapou, mais uma vez, entre os pingos da chuva. Não viu, logo, não pode comentar. E continua sem ver, apesar de já terem passado cinco dias. Isto de estar em campanha não dá jeito nenhum... para andar para trás na box e ir ouvir o único socialista que alguma vez conseguiu maioria absoluta, e que deixou o conselho ao antigo amigo e antigo número dois: "Quem pede uma maioria absoluta não deveria desmerecer a única que teve."
Costa não ouviu.

A campanha acabou animalizada - o PAN agradece - e o último protagonista é Zé Albino, o gato de Rio, que passou a comentador e analista político. Desde o primeiro tweet de Rio, que revelou o que pensava o seu gato do estender de mão do PS ao PAN, que Zé Albino entrou na campanha e por lá permanece todos os dias, seja para exprimir o que sente o dono, seja para levar recados dos adversários.

Tem graça? Uma vez, até pode ter. Mas não deixa de ser triste o facto de um gato servir de pombo-correio, emissor e recetor de mensagens que são para nós e que, por via desta campanha, nos chegam através dos "humores" de Zé Albino.

Faltam sete dias para as eleições. O futuro que temos nas mãos é bem mais importante e decisivo do que andarmos a falar com um, e de um... gato.


Jornalista

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