É cruel acusar qualquer pessoa, membro de uma minoria étnica que se sinta vítima de um ato racista, de pretender colher um benefício quando denuncia aquilo que considera ser uma agressão desse tipo..Eu, que no meu país sou considerado branco (o que não é uma verdade universal, nos Estados Unidos, por exemplo, seria oficialmente "despromovido" a latino) não faço a mínima ideia do que é ser herdeiro ancestral do racismo associado à cor da pele..Por exemplo, nunca me chamaram "branco", fosse por brincadeira, fosse por ironia, fosse por insulto; chamaram-me sempre pelo meu nome ou, quando me quiseram insultar, utilizaram muitos e variados epítetos que foram desde os tradicionais opróbrios à reputação sexual de mim próprio ou dos meus progenitores, até ao banal vitupério ideológico contra os "comunas"..Já fui alvo de caricaturas um bocado maçadoras, de números de comédia televisiva que me ridicularizavam e até houve em tempos na internet um jogo de computador em que as pessoas disparavam contra mim para me "matarem"..Nesta longa e pacata história pessoal de recebimento de ofensas e injúrias (e a algumas dei troco equivalente), nunca fui confrontado com a afronta rácica, nunca me disseram "vai para a tua terra ó cara de lixívia", nunca me chamaram "branco imundo", nunca me compararam com macacos albinos ou com ratos de laboratório, nunca me apontaram, mesmo prazenteiramente, alguma coisa que me pudesse identificar como pertencente a um grupo humano geneticamente distinto (o que é uma falsidade científica) ou "inferior" - e, tal como eu, quase todos os que se consideram brancos no nosso país também nunca passaram por isso..O contrário é, também, quase universal: não deve haver um negro, um amarelo, um cigano, um mestiço que não oiça frequentemente referências à sua suposta raça. Quando há uma discussão, um debate, uma conversa de grupo, mesmo entre amigos ou colegas de trabalho, o insulto, a piada ou a simples identificação racista aparece sempre. Quando se passa na rua, quando se vai ao futebol, quando se está num transporte público, qualquer um de nós ouve dezenas e dezenas de vezes palavras e conversas racistas..Nenhuma pessoa considerada branca em Portugal sabe o que é isto, o que é viver, desde bebé, debaixo de um anátema rácico, que também amaldiçoou os pais, os avós e todas as gerações que nos precederam..É evidente que o primeiro-ministro António Costa sempre foi alvo de racismo - tantas vezes ouvi pessoas a falar dele com termos racistas e até houve quem escrevesse que ele não ganharia eleições por causa da cor da pele - mas também é verdade que a sua condição social e o seu percurso bem-sucedido na vida pública o protegeu de muitas situações odiosas que grande parte dos habituais alvos de racismo enfrentam todos os dias..Não aceito, por isso, a acusação perversa de que o primeiro-ministro, quando qualificou de "racista" um cartaz com uma caricatura sua com nariz de porco e dois lápis espetados nos olhos, estivesse a aproveitar o insulto gráfico para virar a opinião pública contra os professores que promoviam aquele protesto - quem somos nós, supostos brancos que não conhecemos esta mágoa, para medirmos a genuína sensibilidade emocional de quem se sente insultado racicamente?.Quer isto dizer que o cartaz em causa tinha uma intenção racista? Como não vejo nele uma tentativa de caracterização generalizada de um grupo social, apenas vejo um ataque individualizado a um político, até penso que não - mas isto, contraditoriamente, não invalida que o alvo da caricatura não sinta, legitimamente e genuinamente, haver ali racismo..Também me parece que a violência do insulto a António Costa pode ser deslocada, prejudica mais os professores do que os ajuda (e as direções sindicais até o repudiaram), mas tem de ser aceite (como o próprio primeiro-ministro disse) numa sociedade democrática e de liberdade de expressão..Quer a utilização da figura do porco para caricaturar políticos, quer até a simulação de agressões físicas a poderosos são recursos frequentes, há centenas de anos, na organização de protestos dos mais variados tipos..António Costa tem todo o direito de sentir racismo naquele cartaz e de se revoltar contra isso. Mas os manifestantes têm todo o direito em empunhá-lo para demonstrarem a revolta que sentem contra o primeiro-ministro - aliás, a caricatura só existe por ele não ter resolvido eficazmente, desde 2015, os problemas dos professores. Se o tivesse feito, como era justo, esta polémica lateral não existia..Jornalista