Água de fevereiro enche o celeiro! Era coisa que se dizia no tempo da senhora minha sogra, em breve centenária. Hoje, temos mais de 90% do território em seca severa ou extrema e há menos água nas barragens do que na seca de 2005, a pior de sempre. Previsões? Chuva, nem vê-la nos próximos dez dias, descontados uns pingos que hão de incomodar algumas carecas, lá para quinta-feira, mas só no litoral a sul do Tejo..A inquietação e nalguns casos desespero que toca quantos vivem da agricultura ou da pecuária há de tocar a todos, quando os efeitos da seca se repercutirem nos preços dos bens alimentares. E não vale a pena alimentar expectativas quanto às ajudas de emergência que os governos de Portugal e Espanha reclamaram ontem mesmo da Comissão Europeia, tendo em vista mitigar os efeitos da seca prolongada que atinge a Península. Bruxelas sabe que "as alterações climáticas irão aumentar ainda mais a escassez de água e os riscos de seca", e mostra "sensibilidade" para o problema ibérico. Mas entende que o combate à seca é um objetivo de "médio e longo prazos", devendo dar-se prioridade à "transição agrícola para métodos mais sustentáveis e resilientes", contribuindo para a "neutralidade climática"..Cinismo à parte, o pessoal da cidade adora este tempo de inverno soalheiro e, entre escapadelas à beira-mar e uns passeios pelo campo, há até uns milhares, sobretudo a norte e na Galiza, que partem ao reencontro dos fantasmas de antigas aldeias inundadas pelas barragens e que reaparecem por estes dias de seca prolongada. À míngua de água, para turista ver, o que emerge nas nossas albufeiras é toda uma geografia assombrada de topónimos que os cartógrafos há muito apagaram dos mapas, povoados que deixaram de o ser. Isto, enquanto as televisões mostram imagens das tempestades nunca vistas que devastam a norte da Europa, em Moçambique ou no Brasil - sinais do tempo e dos tempos..Quando o Conselho de Segurança da ONU foi criado, com a finalidade de manter a paz e a segurança internacionais, era difícil imaginar que, 75 anos depois, as mudanças climáticas fossem incluídas na agenda dos mais poderosos. Ora, em cima da mesa do Conselho está agora uma proposta de resolução que considera as alterações climáticas uma ameaça à paz e à segurança internacionais, e exorta a ONU a abordar os fatores climáticos como uma prioridade nas suas operações de manutenção da paz e prevenção de conflitos. A ameaça climática coloca em risco "tudo o que nos dá segurança", como a produção de alimentos e o acesso à água potável, temperaturas suportáveis ou solos habitáveis..Pela primeira vez, no seu relatório de 2021, o International Crisis Group, que monitoriza conflitos em todo o mundo, incluiu as mudanças climáticas como um risco global. O painel de cientistas que integram aquela organização estima que nos próximos dez anos ocorrerão mais inundações, as secas serão mais extensas, as tempestades mais frequentes e severas, os incêndios e altas temperaturas cada vez mais letais e a segurança alimentar mundial estará em risco. Migrações e epidemias vão multiplicar-se e os meios de subsistência de milhões de pessoas serão destruídos. Se não forem tomadas medidas urgentes, esses fatores exacerbarão as tensões e os conflitos sociais. Ou seja, prenunciada a catástrofe, faltam as medidas que podem evitá-la ou minimizá-la..Até lá, há de chover. E a água da chuva, que tem a vocação de apagar memórias, voltará a encher pântanos e barragens, e a engolir de novo os antigos povoados que a seca destapou, como que, por maldição, só nos restassem os caminhos da saudade e o que conduz ao esquecimento..Jornalista