Ansiedade infantil em fenómenos extremos: compreender para intervir

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As tempestades que têm atingido o nosso país não afetam apenas infraestruturas, transportes ou rotinas diárias. Afetam também, e muito, as crianças. E, enquanto adultos, não devemos subestimar o impacto emocional que estes fenómenos meteorológicos intensos podem ter nos mais novos. O barulho do vento, a chuva torrencial, as notícias alarmistas e a perceção de que “algo perigoso está a acontecer” podem desencadear medo, ansiedade e comportamentos de evitamento que, se não forem bem acompanhados, tendem a intensificar-se e a escalar à medida que o tempo passa.

É precisamente por isso que dizer, por exemplo, que “não é nada” ou “não tenhas medo” não só não ajuda, como agrava o problema. As crianças precisam de validação, não de minimização. Precisam de ouvir que é normal sentir medo quando o mundo lá fora parece descontrolado. Precisam de adultos que nomeiem as emoções, que expliquem o que está a acontecer e que lhes devolvam a sensação de segurança que o medo lhes rouba.

A informação clara e adequada à idade é uma das ferramentas mais poderosas que temos. Quando explicamos o que é o vento forte, porque é que os trovões fazem barulho ou como funcionam os planos de segurança, estamos a reduzir a incerteza, que é um dos maiores gatilhos da ansiedade infantil. E, ao contrário do que muitos pensam, dar informação não aumenta o medo, mas diminui-o.

Outro aspeto essencial é evitar cair na armadilha do evitamento. É natural que uma criança assustada peça para não ir à escola, para dormir com os pais ou para evitar sair de casa. Mas ceder sistematicamente a esses pedidos reforça a ideia de que o medo é incontrolável e que a única forma de lidar com ele é fugir. A curto prazo, alivia. A longo prazo, aprisiona. O caminho é o da exposição gradual, com apoio, e sempre em segurança, com passos pequenos, mas firmes, que devolvam à criança a sensação de competência.

Também não podemos ignorar o papel dos adultos. As crianças observam-nos com uma atenção que raramente reconhecemos. Se nos veem ansiosos, inquietos ou alarmados, concluem que o perigo é real. A calma dos adultos é, muitas vezes, o maior fator de proteção. Não se trata de fingir que nada acontece, mas de mostrar que sabemos o que fazer, que estamos presentes e que conseguimos, todos juntos, lidar com a situação.

Por fim, é importante reconhecer quando o medo ultrapassa o que seria esperado. Se a ansiedade persiste, se o evitamento se instala, se surgem sintomas físicos ou regressões significativas no padrão de funcionamento da criança, é fundamental procurar ajuda especializada. A intervenção precoce evita que um medo pontual se transforme numa ansiedade mais intensa e generalizada.

As tempestades passam. Mas a forma como ajudamos as crianças a atravessá-las pode marcar a diferença entre crescer com medo do mundo ou aprender que, mesmo quando o vento sopra forte, há sempre formas de encontrar segurança. E essa aprendizagem e coragem constrói-se connosco.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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