Animais mais iguais 

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Os animais, inclusive os de estimação como cães e gatos, podem contrair SARS-CoV-2 e, supostamente, a transmissão para os humanos é residual. Improvável mas possível, pelo menos ambiental, se bem que nesta gestão da covid o risco remoto e apenas hipotético foi objecto de repostas musculosas (desde prender os comedores de gomas a proibir o surf).

Agora, este tema dos bichos voltou a estar na agenda mediática devido a um estudo português mas, na verdade, desde Março de 2020 que se conhecia esta questão. Aliás, recordo-me (e guardo foto), de como a farmácia do meu bairro (e muitas outras), tinha então um cartaz advertindo para esse perigo (que pouco depois foi retirado).

Sucede que, provavelmente com receio que as populações sobretudo urbanas desatassem a cuspir para a rua os seus animais de companhia, este tema quase sumiu da agenda mediática e eram raras as notícias, ainda que tenham escapado os zoológicos com hipopótamos ou leopardos da neve com covid, os 17 milhões de furões abatidos na Dinamarca ou, claro, a história do início nos morcegos.

Aliás, quando ainda se bloqueava e apodava de negacionista quem falasse da eventual origem laboratorial do coronavírus, vingava a teoria da transmissão animal-humano. Nessas fases críticas, pude levar os meus dois cães à rua a passear ou a brincar ao parque dos canídeos mas não pude levar os meus dois filhos mais novos (em 2020, de 2 e de 3 anos), a jogar à bola no relvado ou a macaquear no parque infantil.

Durante estes tempos insanos, em muitas casas cães e gatos, naturalmente não testados e com ou sem covid, conviveram como dantes com os seus donos e familiares, enquanto crianças pequenas foram encarceradas no seu quarto durante dias a fio, com refeições passadas na porta, imersos em pânico e banhados a alcool gel cujos efeitos a longo prazo ainda se desconhecem. Isto já para não falar dos idosos desamparados nos lares sem visitas, gente a morrer só nos hospitais que barraram entrada de familiares, miúdos que aos 9 anos de idade são analfabetos, etc. Enfim, a balança pende forte a favor dos amigos de quatro patas. Aliás, nesta campanha eleitoral falou-se mais de bicharada do que de criançada embora tenham sido elas as principais vítimas deste processo.

O Papa Francisco não foi rigoroso quando afirmou recentemente que os casais que escolhem ter animais de estimação em vez de crianças estão a agir de forma egoísta. Na verdade, muita gente gostaria de ter filhos mas não tem condições (nem quer deixa-los nas escola até ser noite), ou fez outras opções (como o próprio Pontífice), e o amor não é excludente, antes pelo contrário. Mas, de facto, pessoas que preferem bichos a humanos, frequentemente, estão a esconder as suas próprias dificuldades relacionais: um animal doméstico não é livre nem se emancipa. Criar, formar e interagir com uma pessoa é outro patamar de exigência, óbvio.

Ou seja, como não é necessário partir a espinha a cães e gatos (intrinsecamente subordinados aos seus donos), a questão das patas foi apagada, evidenciando que o empolamento estratosférico da covid nunca foi por saúde pública mas sim por questões políticas. A coisa retorna agora que já se obteve grande parte do que se pretendia com esta engenharia. Além disso, talvez assim ainda saiam mais umas vacinas.

Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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