América. Afinal havia outra?

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Entre nós, tem algum eco uma velha escola de anti-americanismo primário, que se alimenta da tese básica de que, na América, “eles” são todos iguais.

Republicanos e democratas, dependendo da conjuntura externa que condiciona o momento, representarão os interesses por trás da mesma moeda, o dólar, com faces apenas aparentemente diversas. São sempre os mesmos powers that be que ditam as regras, que mandam fazer ou desfazer as guerras. Os protagonistas alternam, mas a peça é basicamente idêntica. No fundo, na ocupação da Casa Branca, quase sempre, venha o diabo e escolha.

Com os anos, de forma racional, fui sendo levado, a pensar que, ao contrário dessa escola, nem tudo era assim tão bonnet blanc, blanc bonnet. Houve a tradição do New Deal de Roosevelt, emergiram ondas relevantes de políticas sociais. Nos direitos cívicos - chegando embora tarde ao que era evidente - os democratas estiveram quase sempre na linha da frente, muitas vezes com grande coragem.

É certo que, em momentos decisivos, em especial na obnubilação da Guerra Fria, a Administrações democratas fugiu o pé para os seus Vietnames, para o excecionalismo, para um multilateralismo à la carte. Ainda assim, ia eu concluindo, não era bem a mesma coisa. Longe de ter sido entusiasta de Clinton ou de Obama, sempre me senti mais próximo dessa tradição do que da alternativa republicana, permanecendo um saudoso viúvo de Adlai Stevenson e de George McGovern - esse grupo dos the best presidents we never had.

Com a chegada de Trump à boca de cena, o contraste foi brutal. Tudo o que lhe era oposto passou a parecer melhor. De um dia para o outro, nos “meus”, esqueci os bombardeamentos de Clinton para mudar as notícias de Lewinsky, quase perdoei a cobardia de Obama na manutenção de Guantánamo, tentei apagar da memória a irresponsabilidade de Hillary Clinton na Líbia e, no limite, até desejei ter Kamala Harris na Casa Branca. O desespero induz estas fraquezas.

Trump anunciava-se muito mau. A realidade revelou-se ainda mais impiedosa. A deriva fez-se em catadupa, tanto na ordem interna como no plano internacional. Sanders e Ocasio-Cortez levantavam a voz, mas ela foi submersa na irracionalidade feita política.

Foi então que me lembrei deles: de Bill Clinton, de Al Gore, de Obama, de Hillary Clinton e até, enfim, de Kamala Harris. E esperei que falassem. Em vão.

Quando Trump ameaça usar força militar contra a Gronelândia - território de um aliado NATO - ou quando desmonta, com desdém, o sistema das Nações Unidas que os próprios Estados Unidos ajudaram a construir, o silêncio daquelas que foram lideranças democratas de peso é perturbador. Os promotores históricos do multilateralismo, de uma ordem internacional com algumas regras ou da agenda climática permanecem ausentes do espaço público, enquanto décadas de diplomacia são desfeitas com uma penada arrogante.

Este silêncio não é neutro. É uma escolha. Quando uma potência se arroga direitos de natureza imperial sem oposição interna credível, cria precedentes. E os precedentes, como bem sabemos, raramente ficam confinados a quem os inaugura. O silêncio de hoje prepara a capitulação de amanhã.

Será então que, afinal, a tese do “eles são todos iguais” tem alguma razão de ser? No final de contas, neste momento decisivo, que é feito da outra América?

Embaixador

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