Amigos Coloridos

Na passada quarta-feira, pouco antes de anunciar a abolição da regra dos golos fora nas competições europeias e pouco depois de divulgar uma parceria com a Lays para "trazer alegria às comunidades" através de pacotes de batatas fritas, a UEFA emitiu um comunicado sobre o arco-íris.

Começando com um título inequívoco ("A UEFA respeita o arco-íris") e escrito no penoso vocabulário desidratado das reações públicas, o comunicado esclareceu que o organismo não considera o arco-íris um símbolo político, mas sim um sinal do seu "firme compromisso" com os valores da diversidade, da inclusão, e da refracção da luz solar.

Tudo isto surgiu na sequência de um pedido de Munique para iluminar o estádio às cores durante o Alemanha-Hungria, um pedido rejeitado pela UEFA citando o dever de neutralidade a que os seus estatutos a obrigam. É possível perder algum tempo a dissecar contorcionismos semânticos, mas é também importante reconhecer que o comunicado não denuncia inépcia - pelo contrário, mostra um sistema a funcionar tal como era pretendido por quem o desenhou: permitindo à UEFA absolver-se de quaisquer responsabilidades e evitar quaisquer pontos concretos de fricção ao mesmo tempo que continua a afirmar o seu "compromisso" abstracto com um conjunto de valores positivos.

É o mesmo sistema que usaram em 1999 ao recusar um pedido da FPF para usar fumos negros em solidariedade com Timor-Leste antes de um jogo com a Romênia, e que usaram em 2019 ao multar a Federação Turca depois de vários jogadores terem celebrado um golo com continências, a meio da investida militar do país contra os curdos. Há aqui hipocrisia, mas não mais do que aquela que é exibida por qualquer instituição com responsabilidades sempre que abdica do seu poder efectivo e delega a totalidade das suas reacções a comunicados e/ou manifestações retóricas de "preocupação", "indignação" ou "solidariedade".

A sacrossanta separação entre desporto e política tem sido alvo de outros desafios conceptuais ao longo do torneio: os assobios com que adeptos russos receberam o ajoelhar colectivo da selecção Belga, e os aplausos que afogaram os apupos quando o mesmo gesto foi repetido (e a mesma reacção timidamente ensaiada) no Inglaterra-Escócia.

Estes actos de protesto por parte de futebolistas não pretendem ser afirmações programáticas nem definitivas sobre os assuntos em questão, mas apenas sublinhar a disjunção entre aquilo que certas instituições afirmam ser valores universais e as flagrantes assimetrias selectivas na sua aplicação. Para a franja de adeptos que insiste colericamente que não há lugar no desporto para a política, a irritação é menos com o objecto dos protestos e mais com a sua mera existência (e persistência) - e com com a inconveniência de serem forçados a pensar em coisas nas quais não lhes apetece pensar. Todos os argumentos contra a inclusão de política no desporto são sempre argumentos contra a inclusão "daquela" política específica (a das outras pessoas, ao invés da nossa), o que faz com que a coisa rapidamente resvale para um combate entre a substância de protestos específicos e o frívolo universo retórico onde eles são forçados pelas circunstâncias a decorrer - uma frivolidade, já agora, de que a UEFA, com a sua neutralidade, é apenas um de vários fornecedores.

"Neutralidade", "valores", "compromisso". Como qualquer organização de carácter e dimensão semelhantes, a UEFA adora este tipo de vocábulos: grandes, abstractos, seguros - o lorem ipsum dos dialectos mutinacionais. Salvo raras (e esperadas) excepções, as reacções à posição pública da UEFA criticaram automaticamente o seu refúgio na neutralidade. A crítica é mais do que legítima, mas também parece partir do princípio que, para abdicar da neutralidade, tudo o que a UEFA tinha de fazer naquela situação era autorizar a alteração temporária do esquema cromático de um recinto desportivo; como se o contrário de neutralidade fosse escolher um dos lados - e essa escolha sem custos de maior fosse o último passo, depois do qual mais nenhum é necessário nem possível. Quão fácil queremos realmente tornar o acto de não ser neutro?

A UEFA não "cedeu" neste caso, mas há poucos episódios contemporâneos mais corriqueiros do que as UEFAs a produzirem públicas "cedências" em situações análogas. O facto de estes gestos de aparente capitulação ocorrerem depois daquilo que passa por pressão colectiva (dois mil tweets, quinze editoriais, e um qualquer sub-secretário de estado da Benelux a confessar-se "muito preocupado") cria a ilusão de vitórias - uma ilusão que nunca é tão conveniente para ninguém como é para as instituições capazes de perceber quão pouco é exigido delas, quão baixas são as expectativas, quão fácil é receberem as boas vindas a um qualquer combate humanista.

É possível que estes suavíssimos cadernos de encargos sejam efeitos secundários das mesmas modalidades de activismo online em que opiniões políticas são meras expressões do tipo de pessoa que queremos ser (e que queremos que os outros nos vejam a ser): formas de construir e reforçar uma auto-imagem que vão criando uma política feita de gestos, poses e escolhas de consumo, em que o supremo acto de protesto é falar com o atendimento ao cliente: pede-se o livro de reclamações, protesta-se individualmente algo que nos desagrada - e declara-se vitória quando se ouve a mensagem gravada a garantir que "a sua chamada é importante para nós". Aquilo que fica é uma vasta paisagem de gestos virtuais, aos quais cada pessoa pode acrescentar o seu, ou ir reagindo aos dos outros com manifestações de aprovação ou desagrado.

É óbvio que, mesmo superficiais, estes fenómenos nunca são totalmente supérfluos. Ao atingirem os seus picos de volume dentro dos respectivos ciclos noticiosos, tornam esse volume audível para as minorias a que se dirigem. E para quem pertence a uma minoria perseguida ou descriminada, o ruído da solidariedade será sempre uma melhor alternativa ao ruído da animosidade do que o mero silêncio. Mas quando executados num vazio feito de estratégias de marketing e respostas transitórias, não deixa de ser o equivalente ao jogador que beija o símbolo do clube enquanto corre na direcção das claques: o gesto pode proporcionar um momento genuíno de comunhão colectiva, mas também é efémero, meramente contextual - e absolutamente irrelevante como indicador de qualquer aliança duradoura. O mais curioso é quão docilmente se internalizou esta lógica de que a acção política não é eficaz a não ser no plano do gesto, da pose e do símbolo, ou quando substitui a eficácia pelo efeito emocional (ou nas "mentalidades") e quando subordina questões práticas a questões superficialmente morais.

Entretanto, a final da Liga Europa está marcada para Budapeste, portanto é provável que nessa altura tenhamos uma nova iteração do que se passou agora. Um estado membro da União Europeia (e da Uefa) descrimina em função da orientação sexual. Essas duas instituições têm mecanismos próprios para reagir. Acção colectiva coordenada talvez pudesse aplicar pressão suficiente para obrigar ambas a contrariar a inércia e a usar esses recursos. Mas todos estes processos oferecem ao adepto menos validação imediata e colocam exigências individuais muito maiores: exigências de tempo, de capacidade de organização, e até de disponibilidade emocional - pois como em qualquer processo que pretenda obrigar centros de poder a mudar de direcção, a maior probabilidade é o fracasso. No plano simbólico, as derrotas têm a vantagem de custar menos.

Este é talvez o mais forte argumento contra a insistência da separação imaginária entre política e desporto: a correspondência entre os tipos de eventos que as duas categorias produzem - eventos com os quais nos relacionamos essencialmente enquanto consumidores e espectadores. Coisas que acontecem na televisão e na internet, mediadas por ecrãs, perante as quais escolhemos um lado, e adoptamos um esquema de cores, e emitimos opiniões, e reagimos às opiniões de terceiros: muito bem, muito mal, que orgulho, que vergonha. O espectáculo permite uma recitação regular e confortável de alianças e antagonismos, e permite-nos ver, ocasionalmente, amigos a festejar, ou adversários a espumar de raiva. Nunca nada de substancial é alterado, mas também nunca somos obrigados a continuar a ver aquilo que ficou na mesma. Os ecrãs são muitos, e há sempre outra luta qualquer.

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