Alerta clima

Quando, há uma semana, escrevi sobre a urgência do combate às alterações climáticas e as suas implicações sociais, não tinha como adivinhar a desgraça que se abateu no centro da Europa. Recebemos, com estupefação, imagens de carros abalroados pela água, destruição de vilas e comunidades inteiras. Pior, recebemos, com pesar, as notícias de que as cheias causaram perto de 200 vítimas, a grande maioria na Alemanha.

Este momento difícil é, infelizmente, mais um sinal de que as mudanças no clima do planeta Terra não são preocupações abstratas. Há vidas em risco. Aliás, pouco tempo antes deste episódio, no final de junho, o Canadá enfrentou temperaturas recorde, que atingiram os 49.6º C. Estima-se que, no total, estas ondas de calor possam ter vitimado perto de 500 pessoas.

Ambas são situações que não estamos habituados a enfrentar, pelo menos com efeitos tão dramáticos. O problema é que há cada vez mais situações destas - e mais intensas -, consequência direta das alterações climáticas. A melhor alternativa é óbvia. Temos de acelerar a transição verde, ambiciosa e justa, que não deixe ninguém para trás e onde todos têm um papel ativo a desempenhar: pessoas, empresas, governos, União Europeia (UE).

Esta nova realidade deve ser feita de transportes sustentáveis e acessíveis, habitação digna e eficiente, empregos amigos do clima e incentivos às tecnologias verdes, nomeadamente na indústria. Esta nova realidade, para ter sucesso, tem de ser acompanhada de uma profunda revisão do quadro económico na UE, verdadeiramente capaz de ultrapassar os preconceitos do passado em relação às restrições orçamentais.

No entanto, contra o bom senso que se exige, alguns setores mais conservadores continuam apostados em desvalorizar a urgência de mudar de rumo. Uns acenam com os custos de desenvolver uma economia limpa, ignorando os (muito piores) custos da inação. Outros, ainda mais perigosos, como é o caso de Jair Bolsonaro, tratam a crise climática como uma fábula (na mesma lógica de considerar a covid-19 como uma gripezinha).

Com Bolsonaro, a floresta da Amazónia passou a ser vista exclusivamente na ótica comercial. Agora, um estudo publicado na reputada Nature diz-nos que algumas áreas da Amazónia estão a emitir mais dióxido de carbono do que a absorver, um resultado da desflorestação intensiva e queima de terrenos. Em vez de funcionar como sumidouro das emissões poluentes, o "pulmão do planeta Terra" passou a fazer o oposto.

Este cenário relembra-nos que a ação climática, para ter sucesso, tem de ser um objetivo comum. A União Europeia já concordou em reduzir 55% das emissões poluentes até 2030 e atingir a neutralidade carbónica em 2050. Há também compromissos de semelhante ambição dos Estados Unidos da América, do Japão ou da China. Só através do multilateralismo, ultrapassando barreiras do egoísmo nacional, é que podemos verdadeiramente aspirar a cumprir as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris.

Não tenhamos dúvidas: sem convergência planetária, sem o contributo de todos, seremos sistematicamente confrontados com imagens como as desta semana. Não podemos correr esse risco.

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Groundforce

Os esquemas empresariais do dono da Groundforce têm provocado três tipos de dano: aos trabalhadores, à economia do país e à imagem de Portugal no exterior. Merece censura.

Eurodeputado

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