África, China e Europa

O reputado economista bissau-guineense Carlos Lopes publicou recentemente na sua conta do Twitter um mapa do Economist que é obrigatório mostrar aos líderes e comentaristas europeus quando eles falam da suposta dependência do continente africano em relação à China. O que mostra o referido mapa? Uma realidade insofismável: em vinte anos (de 2000 a 2020), o comércio mundial com a nação mais populosa do planeta cresceu de 25% para 75%, envolvendo maioritariamente todos os continentes, exceto a América do norte (EUA e Canadá); a maior parte da Europa, inclusive, aparece no mapa tingido a cor de laranja, tal como os demais continentes (tingi-los de vermelho seria, certamente, provocatório demais).

E, contudo, os nossos queridos ex (?) - colonizadores não perdem uma oportunidade para manifestar a sua genuína preocupação com a alegada dependência de África relativamente àquela que, até ao século XIII, era a maior potência mundial e hoje ameaça reaver esse estatuto, entretanto consolidado pelos EUA após a II Guerra Mundial. O último exemplo dessa preocupação foi manifestado há dias pelo chanceler alemão, Olaf Scholz, no intervalo das suas atribulações tribais e geopolíticas criadas pela maka da Ucrânia, que a Europa nada fez para evitar, devido, precisamente, à sua subserviência em relação aos Estados Unidos. Antes de avançar, e como o pensamento literal parece cada vez mais dominante, esclareço que, quando falo em "genuína preocupação", estou a ser irónico.

Indo direto ao ponto e segundo noticiou o New Straits Times, disse o líder alemão: - "A ´farra´ (ipsis verbis) dos empréstimos de longo prazo da China aos países pobres, em particular, levanta um sério perigo que pode provocar a próxima crise financeira mundial". Para Scholz, "há realmente um sério risco de que a próxima grande crise da dívida no Sul Global resulte dos empréstimos concedidos pela China em todo o mundo e dos quais não temos uma visão completa devido ao grande número de atores envolvidos". O chanceler alemão acrescentou que "isso provocará uma enorme crise económica e financeira quer na China quer no Sul Global, afetando igualmente o resto do mundo".

As declarações de Olaf Scholz foram feitas em Estugarda, durante uma conferência para discutir os financiamentos chineses aos países africanos, nomeadamente para construir estradas e universidades, incrementando, assim, a presença de Pequim no continente. Os líderes europeus acusam a China de arrastar os países pobres para a armadilha da dívida, ao conceder-lhes empréstimos que eles não podem pagar, enquanto Pequim refuta, alegando que tais empréstimos se destinam a aliviar a pobreza.

O professor brasileiro Cláudio Pinheiro realça igualmente, entretanto, outro ponto: a China passou a liderar não só o comércio e o investimento em infraestruturas, mas também o financiamento à ciência em África. Sugiro aos interessados um artigo da revista Nature, de 2 de outubro de 2018, acerca do plano de desenvolvimento acordado entre a China e os países africanos no valor de 60 mil milhões de dólares e em que o treinamento é um dos pilares fulcrais. No âmbito desse plano, 100 mil africanos (académicos, cientistas e outros profissionais) serão formados, em diversos níveis, em instituições chinesas.

Isso parece (estou a ser gentil) assustar a Europa e o Ocidente em geral. Lamento informar, antes de encerrar, que o verdadeiro risco temido pelas potências ocidentais não é que África se torne dependente da China, mas que se torne "independente" das potências em questão.

Como africano, entretanto, o que me preocupa é outra questão: serão os nossos países capazes de colocar a agenda de cooperação com a China a serviço do desenvolvimento efetivo do continente e de autênticas políticas de justiça social ou apenas como mais um meio para aumentar a corrupção? Isso são outros quinhentos.


Escritor e jornalista angolano
Diretor da revista África 21

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