Afinal, quanto vale a vida de um português, em Portugal?

No dia 30 de Abril de 2021 Portugal registava 442 novos casos de covid. Dois meses depois, Portugal regista 2362 novos casos, mais 1920, ou seja, um aumento de 334% (em dois meses).

Quanto aos mortos, em 30 de Abril de 2021, o total de mortos era de 16 974, em 30 de Junho de 2021 o número subiu para 17 096, mais 122, ou seja (somente???) 0,7%.

E, aqui começa uma estranha justificação para esta "nova" fase da "gestão" da pandemia.

Primeiro, tivemos os festejos do Sporting. Ainda havia poucos mortos!

Depois, as "invasões inglesas". Ainda havia pouco mortos.

Depois, as declarações do Presidente da República, aos eleitos para governar cabe decidir e aos especialistas "chamar a atenção para o juízo que as pessoas devem ter".

Tantas reuniões do Infarmed com "especialistas" afinal para quê? Porque na altura havia muitos mortos?

Os especialistas anunciam que vem aí a quarta vaga. Mas, agora, ainda há poucos mortos.

A Inglaterra tira Portugal da lista verde. Portugal responde que é uma injustiça.

A Alemanha coloca Portugal na lista vermelha. Portugal lamenta a decisão.

Ferro Rodrigues apela a uma deslocação massiva a Sevilha. Marcelo vem em defesa e explica que sim, mas tudo respeitando as normas de segurança.

Ferro Rodrigues, Marcelo e Costa "optam" por ver o jogo em Portugal.

A indignação indigna-se mais uma vez.

Os especialistas anunciam a quarta vaga. Os comentadores vão desde o elogio ao vice-almirante às críticas sobre a gestão da pandemia.

Na pandemia, em Portugal, nada se cria, tudo se perde, nada se transforma.

Façamos uma pausa para reler o que escrevi em 17 de Fevereiro deste ano.

"Na reunião do Infarmed, no passado dia 9 de fevereiro de 2021, foi afirmado pelo professor Manuel Carmo Gomes que 'a testagem é a arma principal que devemos usar e não o confinamento'."

No fim da reunião a ministra de Saúde concordou com a estratégia defendida por Manuel Gomes.

Idêntica posição foi assumida pelo primeiro-ministro, "António Costa defende também aumento de testagem no país".

O Presidente da República, no discurso que fez no dia 11 de Fevereiro, disse também que "temos de melhorar o rastreio de contaminados, com mais testes".

A diretora-geral da DGS em entrevista ao Público (13/2/2021) defendeu que:

"Um teste não dá coisa nenhuma, a não ser um resultado, se estamos ou não positivos, e com uma margem de erro. Um teste não cura, não dá imunidade."

Entretanto os eventos sucedem-se de forma meticulosa.

- A DGS vai ziguezagueando nos meandros infindáveis da AstraZeneca.

- Marcelo insiste que é preciso "Vacinar, vacinar, vacinar".

- Fraude na vacinação. Vice-almirante quer consequências para "ato de indisciplina".

O vice-almirante, é assim confrontado pela primeira vez, com uma alegada "insurreição".

"As tropas, à revelia, avançam com um novo programa de vacinação." E, logo quando afinal estava tudo a correr tão bem.

E, assim vamos vivendo entre: confinar ou não desconfiar; testar ou não testar; vacinar ou vacinar com "indisciplina"; elogiar o milagre português ou criticar o caos da gestão da pandemia.

Dirão uns que tudo isto faz parte do processo de aprendizagem. E, desde que andemos na média europeia, estamos bem.

Não é verdade.

Tudo isto é, somente, reflexo de uma profunda falta de liderança. Que aliás é histórica: a falta de capacidade de liderança não começou com a pandemia.

Basta lembrar dos fogos de Pedrógão. A falta de liderança resistiu ao fogo e, apesar de ter ficado chamuscada, continua de pé, agora a "liderar" a pandemia

Liderar o combate à pandemia não é uma responsabilidade que se exerce entre as 09h00 e as 17h00 (dias úteis).

Testar e, ou, vacinar, somente "dentro do horário normal de funcionamento", e respeitando as pontes, não é liderar.

Analisar e discutir "estratégias"/táticas com os especialistas para combater a pandemia só de 15 em 15 dias (reuniões Infarmed) também não é liderar.

Comunicar, sim, muito importante, mas cada um (autoridades, especialistas. comentadores etc.) à sua maneira, quando quiserem e sobre o que quiserem, também não é liderar!

E, quando alguma coisa corre mal, o que tem acontecido vezes sem conta, culpar os portugueses também não é liderar.

Andar na rua e ficar deslumbrado porque os portugueses "lhe" agradecem o seu trabalho também não é liderar.

O Papa Francisco dá o exemplo, ele lava os pés dos peregrinos, não o contrário.

E, quando colocam Portugal na lista vermelha, dizer que é uma injustiça ou lamentar a decisão também não é liderar.

Dezoito meses depois, aqui vamos nós para a alegada quarta vaga, com a mesma serenidade com que fomos convidados a ir massivamente para Sevilha.

Resta perguntar, então, porquê tanta indignação?

Vejamos um entre muitos outros exemplos.

Ferro Rodrigues disse em Abril de 2020: "Então nós íamos mascarados para o 25 de Abril?"

Recentemente pediu aos portugueses para que "se desloquem de forma massiva para o sul de Espanha".

O que aqui temos é um exemplo de coerência.

A mesma coerência de muitos "líderes", que têm vindo a "liderar" a pandemia, os fogos, etc.

A liderança não se adquire por estatuto ou por decreto.

Liderar é uma arte, não um exercício de improvisar.

Quem lidera, lidera pelo exemplo.

Quem lidera tem visão, mostra o caminho e antecipa soluções, não tem medo de assumir riscos.

Quem lidera reserva os louros para a sua equipa e assume as responsabilidades quando algo corre mal.

Quem lidera trabalha em benefício dos outros e o sucesso dos outros é a sua melhor recompensa.

Quem lidera faz que as coisas aconteçam através dos outros.

Um líder sabe que não sabe tudo, mas, também sabe que deve ouvir sempre quem sabe.

Fica aqui um desafio - tentemos encontrar líderes em Portugal que preencham os requisitos atrás enumerados e que estejam em funções de responsabilidade, por exemplo no combate à pandemia.

Tão rápido quanto os encontrarmos, tão rápido a pandemia ficará controlada.

Como nota final. Taiwan, com o dobro da população de Portugal e junto ao epicentro da pandemia, tem 24 mortos por um milhão de habitantes, Portugal tem 1681 mortos por um milhão de habitantes.

Portugal poderia ter sido a Taiwan da Europa, mas, os "líderes" não quiseram ouvir nem quiseram saber o que tinham de fazer para salvar vidas.

Quando, passados 18 meses, as autoridades portuguesas ainda tentaram justificar que o impacto da variante indiana se resumia à zona de Lisboa é um exemplo acabado de que já se "esqueceram" de que a pandemia começou na China e hoje está espalhada por todo o mundo.

Os portugueses pagam impostos de acordo com as políticas escolhidas pelos diferentes governos, mas, de quatro em quatro anos, podem exercer o direito de escolha.

Os portugueses que já pagaram com as suas vidas a falta de liderança no que toca à gestão da saúde e da segurança já não estarão cá para votar!

Portugal já pagou com mais de 17 mil vidas!

Com quantas mais terá de pagar?

Afinal, quanto vale a vida de um português em Portugal?

Especialista em gestão de risco. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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