Afeganistão e o retromodernismo!

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Há 20 anos os acontecimentos do dia 11 de Setembro provocaram uma ruptura a todos os níveis, o que conduziu a uma inevitável mudança de paradigma, também a todos os níveis. A queda das torres confirmou, no meu entender, o pós-pós-modernismo enquanto enquadramento artístico, provocando por exemplo nos arquitectos um regresso ao debate e uma clivagem entre os defensores da construção em altura, um brutalismo moderno para os outros, que viam na segurança do alcance de uma escada magirus a altura mais que ideal, para quem o tamanho não importa! Ao nível político deixou de haver neutros e após a queda do muro, após o momento-experiência "guerra humanitária" de Clinton, o inimigo para o Ocidente estava de novo identificado, permitindo um regresso ao foco necessário. Desde 1991 que se foi vivendo no "nevoeiro da guerra", mas não mais isso voltaria a acontecer. O "arco islâmico" definido por Huntington, da Mauritânia à Indonésia, passava a estar todo no radar, tendo a definição do "Eixo do Mal", Iraque, Irão e Coreia do Norte, afunilado os alvos a abater.

Vinte anos depois, é possível que estejamos a assistir de novo a nova mudança de paradigma, pelos seguintes factos:

- Primeiro, é a primeira vez que no espaço islâmico pós-colonial os locais perdem o poder, são expulsos, dados como extintos e, 20 anos depois, recuperam os mesmos centros de poder em dez dias, sem dispararem um tiro. Apesar de se tratar de espaço com referências muito próprias, a analogia com "David e Golias" catapulta o sentimento destes humanos para a inevitabilidade da ajuda divina ao longo das duas últimas décadas. Este é o novo olhar afegão, quando estes olham uns para os outros, todos, independentemente de serem talibãs, desta ou daquela etnia/geografia. E isto é comunidade.

- Segundo, a fuga NATO inclui três membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, EUA, Reino Unido e França, enquanto os outros dois, Rússia e China, se mantêm no país. Em consequência e apesar de os canais reservados e secretos continuarem abertos para todos, a verdade é que os americanos, enquanto símbolo do Ocidente, nos colocaram a todos numa posição subalterna. As grandes decisões e as grandes influências terão sempre de passar por russos e chineses, sobretudo por estes últimos.

- Terceiro, os chineses já ocuparam este vazio, o que num cenário de realismo mágico até dá para ver uma saída caótica programada e provocadora de uma reacção chinesa que, ao ficar a segurar agora na tocha, já começou a investir o próximo trilhão no seu Vietname, forma mais eficaz de ferir uma superpotência, indo-lhe ao bolso. "Da guerra das estrelas ao Afeganistão", creio que resume bem esta realidade-ficção.

E os inenarráveis talibãs em pano de fundo, vestidos de mortalhas e turbantes, todos na medida dos sete metros, para que as roupas também lhes sirvam de casa mortuária, quando o galo cantar, marcam a tendência em tons moderados da passagem para um retromodernismo de um novo país que já não é república, mas sim emirado!

Politólogo/arabista. www.maghreb-machrek.pt
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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