O que me resulta mais impressivo, das audições nesta semana de membros do gabinete do ministro das Infraestruturas no parlamento, no âmbito da comissão de inquérito à tutela política da TAP, é, por um lado, o ambiente de excessivo amadorismo e de informalidade deslocada com que os negócios públicos são aparentemente tratados. Por outro lado, o uso que é feito de órgãos de polícia criminal e de serviços de informações, para lidar com um caso que parece ser, no mínimo, uma questão de gestão de recursos humanos e, no máximo, um caso de meltdown coletivo de quem não lida bem com a pressão do escrutínio público e se sente posto em causa perante qualquer ameaça de transparência adicional, na bolha conspirativa de politiquice em que se encerra..O deprimente rol de supostas agressões, sequestros, barricamentos em instalações sanitárias, insultos e ameaças de pancada, "roubos" de computadores e afins, para além dos eventuais crimes em causa, parece ser acessório, tristemente lúdico como narrativa, indiciador até de dificuldades ao nível da saúde mental..O ex-adjunto do ministro das Infraestruturas não era um desconhecido ou uma novidade exótica ao nível da gestão de processos de decisão pública. Partilhou vários anos, como adjunto do membro do governo dos Assuntos Parlamentares, o espaço de trabalho com pessoas como Hugo Mendes, ex-secretário de Estado das Infraestruturas ou Marina Gonçalves, atual ministra da Habitação, sob a direção de Pedro Nuno Santos. Com quem continuou a trabalhar como adjunto quando este foi nomeado ministro das Infraestruturas. Era o gestor de processo, percebeu-se esta quarta-feira, no que dizia respeito à TAP, junto da tutela política desta empresa. Mudou o ministro e, passados poucos meses, parece que tudo começou a correr mal. O gabinete tornou-se numa creche. À semelhança do que sucede, por vezes, nas famílias, no fundo. Saiu de cena o pai, veio um padrasto..Mas nada explica que, por exemplo, apenas este adjunto detivesse, e mais ninguém no ministério das Infraestruturas, os documentos relevantes relativos à TAP, como foi dito no parlamento. Ou que a sugestão de classificação de segurança de documentos tivesse partido deste adjunto e que, com base nessa classificação de documentos, tivessem sido acionados, em catadupa, serviços de informações e polícias, supostamente para recuperar documentos que centenas de pessoas detinham (na TAP, na Comissão Europeia, nas Finanças, etc.)..Só, pelos vistos, neste caso, poderia a sua posse pôr em causa a segurança interna... Isto é mais do que brincar com o sistema de classificação e de proteção de documentos relevantes do Estado. É usar, e mal, as ferramentas sérias, institucionais, de proteção do interesse público, num contexto que parece ser de mera retaliação pessoal, perante uma relação de trabalho que estava a correr mal. Mal se explica também que, após a convocação dos serviços de informações, tenha a Polícia Judiciária sido convocada via ministra da Justiça. A participação à polícia de um eventual crime exige mediação obrigatória da ministra da Justiça? Talvez então assim se perceba melhor a sua ocupação nos últimos tempos. E não pertencerá, no limite, a competência para esse alegado roubo ou furto de equipamento informático à PSP? E pode um funcionário do SIS recusar que documentação lhe seja entregue na presença de um magistrado do Ministério Público, como foi dito na comissão de inquérito?.Um amigo tem-me falado nos últimos tempos sobre como o modelo das constelações familiares o tem ajudado muito. Trata-se, creio, de uma abordagem terapêutica que usa a energia presente num grupo de pessoas e procura reequilibrá-la, nomeadamente através de terapia grupal. Confesso ser um pouco cético - talvez à semelhança do ministro, que alegadamente acha que dois socos resolvem melhor e mais depressa um problema, ferramenta terapêutica que eu tendo igualmente a valorizar. Enfim, deixo só a sugestão. Talvez o PS profundo a queira ponderar, pelo menos com a eventual vantagem de poder impedir mais comunicados de imprensa e um uso manifestamente prolongado de instalações sanitárias de serviços públicos.. Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa