Abril em Portugal

Em 1967, foi lançada a campanha de promoção turística Abril em Portugal, reeditada nos anos seguintes, estando ainda espalhados pelas ruas os cartazes dessa temporada, por altura da revolução de 1974. Como vários trabalhos de investigação e mostras documentais têm revelado, existiu um interesse pelo turismo praticamente desde o início do século XX, servindo também propósitos políticos através da representação de um país que preservava as tradições, o típico, o autêntico, imagem que incluía o ultramar. Logo após a aprovação da Constituição de 1933 que instituiu o Estado Novo, é criado o Secretariado da Propaganda Nacional, em que pontifica António Ferro, exímio promotor da imagem do regime, que se converte mais tarde em Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo, conhecido como SNI, extinto em 1968, passando as respetivas competências para uma Secretaria de Estado junto da Presidência do Conselho de Ministros. A trajetória é bem reveladora da importância atribuída à Informação, à Cultura Popular, e ao Turismo, enquanto instrumentos de propaganda e proteção do regime.

A campanha Abril em Portugal concorreu para trazer ao país muitos turistas atraídos pela praia, pelo sol e, em alguns casos, também, por um primitivismo sedutor em tempo de férias. Contudo, esses turistas trouxeram, também, novos hábitos, diferentes ideias e, posso dizer na primeira pessoa, esses contactos converteram-se na primeira viagem ao estrangeiro, ainda que realizada dentro de portas. Nessa altura, muito poucos portugueses tinham capacidade de viajar ou podiam sair do país (desde logo, o esforço de guerra impedia a saída dos rapazes em idade de recrutamento, por se temer a deserção) e, por isso, o "estrangeiro" convertia-se numa miragem, um território muito longínquo a que acedíamos através dos que nos visitavam.

"Considero que a maior conquista destes quase 50 anos de construção democrática foi o direito à educação."

As roupas, a música, os livros, os hábitos - tudo servia para viajar e compreender que existiam outras formas de viver e pensar. Por isso, a campanha Abril em Portugal também nos dizia respeito, pelo movimento que trazia às cidades, sobretudo junto das praias, pelo trabalho sazonal que propiciava (incluindo aos jovens estudantes), pelas possibilidades de "falarmos línguas" e abrirmos horizontes. De alguma forma, para os que aqui estávamos confinados, a campanha Abril em Portugal era, por antífrase, o anúncio de um outro abril, em que ficariam para trás os galos de Barcelos, os ranchos folclóricos, o bom e ordeiro povo português e nos iríamos abrir à irreverente mudança.

Considero que a maior conquista destes quase 50 anos de construção democrática foi o direito à educação. No início dos anos 1970, a taxa de analfabetismo era de 25,7%, sendo de 31% entre as mulheres, enquanto no início dos anos 1980 já era de 18,6% e, chegados ao início da década passada, de 5,2% da população, o que ainda representa cerca de 500 mil pessoas, na sua maioria acima dos 60 anos. Do mesmo modo, tem prosseguido uma significativa diminuição da taxa de abandono escolar, objetivo perseguido e alcançado em menos de uma geração.

Muitos outros indicadores serviriam para mostrar a imensa transformação da educação, setor tão importante para o crescimento económico e o aumento da produtividade que tanto almejamos. Entre muitos (e até por comparação com outros sistemas educativos), refiro o esforço realizado para diminuir as assimetrias entre regiões, entre escolas urbanas e do Interior, procurando que os jovens possam ter igualdade de oportunidades.

Este fim de semana assisti à final da 8.ª edição da Academia Ibero-americana do Clarinete, iniciativa promovida pela Academia de Música de Castelo de Paiva (AMCP). Além dos concertos e da formação, em que participaram conceituados músicos da Argentina, França, México, Portugal e Venezuela, decorreu um concurso presidido por um grande e reconhecido mestre do clarinete, António Saiote, em que participaram 30 candidatos de países ibero-americanos e europeus, tendo vencido de forma destacada três jovens portugueses.

Castelo de Paiva é um município incrustado na região do Douro com cerca de 17 mil habitantes. A AMCP é um estabelecimento de ensino de música que, desde 2011, leciona cursos básicos e secundários em regime de paralelismo pedagógico: os estudos que leciona são equiparados aos ministrados nas escolas públicas, podendo os alunos beneficiar, ao mesmo tempo, de formação musical. Não admira que tantos músicos tenham saído daqui para carreiras internacionais, mostrando que a nossa democracia tem ajudado a formar uma juventude cada vez mais competente que, nos diferentes domínios, pode contribuir para a competitividade dos talentos.


Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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