Abram as fronteiras entre Portugal e Espanha, por favor

Senhor Sánchez, senhor Costa, há quase três meses que as fronteiras terrestres entre Portugal e a Espanha estão fechadas, salvo em 18 pontos de passagem autorizados (PPA) dos quais só sete deles estão abertos de maneira permanente 24 horas por dia: Valença do Minho, Vila Verde da Raia, Quintanilha, Vilar Formoso, Caia, Vila Verde de Ficalho e Castro Marim. Pela segunda vez em menos de um ano a fronteira física, com os controlos transfronteiriços por parte da GNR em território luso e da Guardia Civil em Espanha, fizeram regressar os fantasmas dos dois países ibéricos, de antes da sua adesão à Comunidade Económica Europeia, hoje UE, em 1985. "Quem nos ia dizer que voltaríamos a ter controlos na fronteira e que não poderia entrar em Portugal para ver aos meus netos? Dizia há uns dias bastante preocupada a minha mãe.

Ainda que o pior seja o grande impacto familiar, económico e social que o fecho das fronteiras ibéricas, desde Valença do Minho até Vila Real de Santo António, tem motivado no dia-a-dia dos oito milhões de habitantes da raia, esse território único e maravilhoso que não conhece fronteira física desde há séculos, que partilha afetos e laços familiares. A ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, reconheceu há umas semanas, quando a entrevistei: "Estou consciente do dano que tem feito na raia o fecho de fronteiras."

Uma das coisas que não percebem os habitantes transfronteiriços é porque podem viajar para Lisboa de avião turistas de diferentes nacionalidades e não é permitido cruzar a fronteira terrestre aos cidadãos ibéricos e mais ainda aos que moram na raia? No passado fim de semana, o meu jornal, La Voz de Galicia, publicava um gráfico com a incidência acumulada de casos de covid-19 nos últimos 14 dias nas câmaras municipais do sul da Galiza e em Portugal no Minho e em Trás-os-Montes. Em todos esses concelhos a incidência era inferior a 100 casos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias. "Não percebo como pode acontecer isto, eu posso viajar de avião de Madrid, Paris ou Londres até Lisboa, mas não posso pegar no meu carro e ir até Elvas desde Badajoz para ver a uns amigos", desabafava ontem ao telefone uma amiga minha espanhola.

São milhares os exemplos de casais mistos, ele português ela espanhola, e ao contrário, que só têm enriquecido e fomentado a cultura raiana transfronteiriça, a comunhão entre os dois países e até uma maneira própria de falar única, com mistura do português e do espanhol, como acontece com o dialeto da Fala, na serra de Gata, na Extremadura.
E que dizer dos minhotos e dos galegos do sul, da comarca do Rosal, que falam quase da mesma maneira?

Com este fecho fronteiriço não estão a sofrer só as famílias raianas, também está a sofrer a economia transfronteiriça, o grande motor económico do interior português e das comarcas espanholas fronteiriças, que perdem população dia após dia.

De Lisboa e Madrid, senhor Costa, senhor Sánchez, as coisas veem-se por um prisma mais central mas que nem sempre abrange a maior parte do território e das suas gentes. São milhares os trabalhadores transfronteiriços que diariamente cruzam a fronteira no seu carro para ir trabalhar e que desde há três meses perdem imenso tempo em controlos policiais, além de demorarem muito mais tempo na deslocação por serem obrigados a fazer mais quilómetros, se a sua fronteira estiver fechada.

Não acham que é tempo de ouvir os seus cidadãos?

Abram a fronteira, por favor, não esperem mais. Todos ficaremos a ganhar.

Correspondente da rádio Cadena Cope e do jornal La Voz de Galicia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG