A vida de um submarino 

Gouveia e Melo não é quem parece ser. Ou não é quem aparenta e querem que pareça. Os seus últimos seis anos, o seu passado recente (pelo menos esse) revela um homem apostado em urdir intentonas contra colegas, em engendrar rasteiras que derrubem quem lhe faça frente ou apenas dele discorde. As intrigas que moveu contra Silva Paulo (comandante de mar e de guerra) e contra Cunha Lopes (director-geral da Autoridade Marítima e comandante-geral da Polícia Marítima) são a prova factual de que estamos perante alguém com poucos escrúpulos e ilimitadas ambições. O então vice-almirante foi arguido nos dois processos (como, aliás, foi noticiado por este mesmo jornal) e se a legítima resposta de Silva Paulo acabou arquivada, já a exigência de reposição de justiça por parte de Cunha Lopes foi mais longe. Para estancar o escândalo, numa estratégia de contenção de danos, o actual Chefe do Estado-Maior da Armada optou por um acordo em tribunal, acabando por lavrar um pedido de desculpas à vítima - que, devido à conspiração fora exonerado (decisão que foi anulada) e acusado de corrupto. Afinal, quem são os malandros? Enfim, tratam-se sombras espessas, ainda por cima contrárias à cultura castrense e à honra militar, que deixam nódoas gordurosas na alva farda de Gouveia e Melo relativamente ao qual, estranhamente, depois de tudo isto, a Marinha não moveu um processo disciplinar. Mas o que é ainda mais tóxico e daninho é o como se lava este pretérito sujo com silêncios e com as tentativas de endeusar o vice-almirante de camuflado missionário e abnegado. Caramba! Eleito figura do ano, homenageado, medalhado e agora promovido, de novo passando por cima de um colega a meio de um mandato, jogado borda fora como se fosse comida estragada. Pintado como impoluto, de uma masculinidade virginal, o militar é inspiração para extensas hagiografias enquanto faz mitose em entrevistas rosa e arco-íris (não era alguém de baixo perfil?), sublimando insanáveis contradições (ora quer ser político ora rejeita, ora quer voltar à task force ora não). Lá o globo de ouro foi merecido.

Gouveia e Melo teve um bom desempenho à frente da operação de vacinação? E então? Tinha uma tarefa logística e administrativa exigente (mas nem sequer de planeamento), dispondo de todos os meios e mais alguns para a executar, bem como de uma comunicação social que beijava o chão que pisava. Aliás, note-se que no próprio dia em que assumiu funções, automático, como que por magia, os fura filas sumiram. Ou seja, mais do que tudo isto revelar o carácter de um homem, demonstra as profundas fragilidades de uma nação que, entre a esperança salvífica sebastiânica e uma casta política cleptocrata, lá se arrasta na cauda da Europa. A sério? Um país com centenas de anos que continua a sonhar com um papá protector e disciplinador?! Parecemos um homem de meia-idade ainda em casa dos pais com a sua mesada, esperando que sejam eles a resolver os seus problemas enquanto os culpa de não ter terminado a faculdade ou de não ter casado.

Gouveia e Melo talvez seja um bom operacional. Mas é evidente que trepou até ao poleiro com tácticas ínvias que encaixam com as de quem manda no país e agora o encara como trunfo eleitoral. Vá. Colinho dá a mamã em casa, não é?

Psicóloga clínica. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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