Desde o início do mês, na sequência da operação americana e israelita no Irão, o preço dos combustíveis disparou em Portugal, com um crescimento médio de 30% no gasóleo e de 15% na gasolina. Esta escalada, que só tem paralelo recente com a crise de 2022 desencadeada pela invasão da Ucrânia, já está a gerar impactos negativos na economia e, a prazo, terá repercussões bem mais graves. Sobretudo, se não existir uma solução rápida para a questão de Ormuz, como parece ser o caso.Um dos efeitos mais falados nos últimos dias é o aumento significativo do cabaz alimentar. De acordo com a Deco, os produtos básicos para o dia a dia atingiram o valor mais alto desde que é feita esta avaliação, a que se somam outros sinais preocupantes, como o previsível aumento do gás para consumo familiar. Não por acaso, o Banco de Portugal já acendeu o sinal amarelo no seu Boletim Económico mensal, arrefecendo o prognóstico de crescimento para 1,8% e sinalizando uma inflação em alta para o final deste ano, muito próxima dos 3%. Isto, numa avaliação fechada a 13 de março e que ignora os efeitos mais gravosos da instabilidade no Médio Oriente.Perante este cenário alarmante e as preocupações fundadas com o aumento do custo de vida, o Governo escondeu-se. Ou melhor, refugiou-se na fórmula de revisão automática do ISP que, de acordo com os dados disponíveis, estará a produzir um efeito absolutamente marginal na moderação dos aumentos de combustível. Além disso, não afeta minimamente a voragem fiscal do Estado, que continua a ficar com quase 60% daquilo que os portugueses consomem nas bombas de gasolina.Entretanto, aqui ao lado, o governo espanhol forçou o choque que as circunstâncias impunham: abdicou de 11% de receita direta no IVA sobre todos os produtos energéticos (combustível, gás e eletricidade) e cortou, de forma robusta, o equivalente castelhano ao ISP. Com isso, só esta semana, já fez baixar cerca de 30 cêntimos o preço médio do litro de gasolina e 15 cêntimos no caso do gasóleo.Insuspeito de ser sanchista, reconheço a capacidade que os nossos vizinhos ibéricos tiveram em reagir de forma enérgica e proporcional a um quadro externo adverso. Por cá, estamos a marcar passo ou à espera de que sejam as circunstâncias a mudar. Sempre com o Estado protegido e a fatura a ser paga pelas empresas e pelas famílias.