As sociedades Ocidentais habituaram-se a encarar a verdade como um dado adquirido, quase como se fosse um recurso natural inesgotável. Crescemos com a ideia de que os factos são sólidos, verificáveis, consensuais. Mas hoje, perante a erosão acelerada do espaço público, com a ascensão dos populismos e outros fenómenos, percebemos que a verdade não é apenas a questão filosófica, mas sim uma infraestrutura invisível que serve de “cimento” à nossa sociedade.A academia e o jornalismo têm a sua quota de responsabilidade neste fenómeno. Durante décadas, difundiu-se uma leitura simplificada do estruturalismo, de Saussure, Barthes e outros, com a ideia de que não existe verdade fora das estruturas humanas e das suas relações de poder, de que tudo é linguagem e de que o mundo é apenas interpretação. Essa versão popularizada e distorcida do estruturalismo abriu caminho ao relativismo fácil, ao “cada um tem a sua verdade”, ao conforto intelectual de acreditar que a realidade se dobra às nossas convicções. O problema desta forma de olhar a realidade é que, quando tudo é, afinal, relativo, nada chega a ser comum a todos. E sem um mínimo denominador factual, a vida coletiva torna-se impossível e o nosso destino, enquanto sociedade, será a fragmentação e o conflito permanente.. A isto juntou-se, já no século XXI, a invenção mais perigosa da era digital: os “factos alternativos”. Não são apenas mentiras, mas sim narrativas construídas para ocupar o lugar da verdade e disputar o próprio conceito de realidade. A sua força não vem da evidência, mas da repetição, da emoção e da capacidade de mobilizar identidades. Quando os factos deixam de ser um ponto de partida e passam a ser um campo de batalha, a sociedade fragmenta-se em bolhas que já não partilham o mesmo mundo.É aqui que percebemos o erro de leitura: nem o estruturalismo defendia que a verdade é arbitrária, nem o relativismo é sustentável como base de convivência democrática. A verdade pode ser mediada por estruturas, mas não é dispensável. Pode ser interpretada, mas não é opcional. A coesão social depende de um núcleo duro de realidade partilhada, como números, factos científicos, acontecimentos históricos e regras verificáveis, que permita discutir o resto.Ora é precisamente neste ponto que o jornalismo livre se torna indispensável. Não como árbitro moral, mas sim como guardião metodológico. O jornalismo não garante a verdade absoluta, mas, quando bem feito, oferece um processo transparente de verificação, confronto e escrutínio. O jornalismo deve fazer um esforço permanente, por tentativa, erro e contínua atualização, de aproximação à verdade enquanto conceito absoluto.Num tempo em que a mentira e a manipulação se tornaram modelos de negócio, o jornalismo de qualidade é uma das últimas instituições capazes de reconstruir o espaço comum onde a sociedade se reconhece. E de, por essa via, contribuir para que continue a existir um cimento que nos une.No Diário de Notícias, estamos conscientes do enorme desafio e da colossal responsabilidade que estão subjacentes à nossa missão. Continuaremos a fazer o nosso trabalho e, para tal, pedimos o apoio de todos os nossos leitores, parceiros e anunciantes, a quem agradecemos a confiança e a preferência ao longo destes incríveis 161 anos de vida. Diretor do Diário de Notícias