"A Verdade da Mentira"

“A linguagem política destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime se torne respeitável, bem como a imprimir ao vento uma aparência de solidez." George Orwell
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O título escolhido para o início desta colaboração, que muito me honra, é usualmente atribuído ao filme de ação e comédia de 1994 (designado True Lies em inglês) sobre um espião que leva uma vida dupla, mas também designa um documentário brasileiro de 2018 sobre desinformação e tecnologia.

Vem isto essencialmente a propósito, pasme-se, não apenas dos resultados eleitorais mas do estado que lhes está subjacente. Importa assinalar que, por mais que seja desagradável tanto escrever quanto ler, grande parte das pessoas perdeu a capacidade de ler um livro, de reflectir com seriedade, preferindo refugiar-se em scrolls de pequenos vídeos ou em posts nas redes sociais.

O avanço da tecnologia prometeu-nos uma maior proximidade mas o que trouxe, de forma inexorável, foi um distanciamento cada vez maior. Distanciamento entre as pessoas, como se demonstra pelo mero facto de ser habitual encontrarmos famílias a tomarem refeições cada um atento exclusivamente ao seu telemóvel e sem trocarem uma palavra entre si. Distanciamento dos valores porque no mundo virtual, não apenas os pecadilhos mas a mais refinada maldade, parecem ter sempre menor gravidade e tudo o que a humanidade tem de pior é relativizado. Por último, distanciamento porque aquilo que vemos nas diversas redes sociais, assente em algoritmos com regras duvidosas, obedece a uma programação, em relação à qual não somos apenas alvos mas suas vítimas.

Por outro lado, achar que a Comunicação Social, no seu sentido mais estrito, pode ser substituída pelo que vamos vendo na internet é aceitar acefalamente meias verdades, quando não mesmo puras mentiras, espalhadas sem escrutínio algum e, bastas vezes, feitas sob um anonimato que mais não visa do que escolher a “fonte”. Nos dias que correm, parece até estranho ter que relembrar que os jornalistas, mal ou bem, obedecem a um código deontológico que, por exemplo, os obriga a verificar a notícia. Já aquilo com que vamos tomando contacto nas já referidas redes sociais obedece a uma lógica que nos é completamente desconhecida, não surgindo por acaso e de forma gratuita.

Nada do que ora descrevo ocorre de forma aleatória, obedecendo antes a um plano, do que alguns se aproveitam, afirmando-se “salvadores da pátria” mas procurando resolver apenas a sua vidinha, ainda que à custa daqueles que afirmam querer proteger.

Daí que não se possa estranhar o estado a que se chegou. Após décadas de um Estado Democrático que, refira-se, não esteve isento de muitos erros mas que garantiu condições mínimas de dignidade a muitos cidadãos, tanta gente se mostre completamente indiferente ao estraçalhar dos direitos mais básicos, ainda que sob a imagem de se pretender o “bem” dos bons, sejam eles quem forem. Tal defesa vem normalmente acompanhada do ataque sucessivo e reiterado a diferentes classes de pessoas, assentes em mentiras com aparência de verdade.

Tem sido este o triste espectáculo a que se assiste, sem que resulte claro que, um dia, as vítimas poderão ser a classe a que pertencemos. Mesmo para os não crentes, “Deus, Pátria e Família” nunca significou a hostilização dos princípios mais básicos, como a verdade, a bondade e a capacidade de dar a mão aos mais necessitados.

Importa, mais do que nunca, voltar ao básico e regressar ao que foi caracterizando a Humanidade nas últimas décadas, designadamente no que se reporta ao acto eleitoral que se adivinha.

Falar em princípios ou de valores fundamentais a quem deles não quer saber parece radicar numa profunda inutilidade. Contudo, mesmo para os que ficam embevecidos com o gato António, importa que se recordem da defesa das touradas ou, até, da castração feita noutro gato, sem as condições mínimas de higiene. Mesmo para aqueles seres que reduzem a mulher ao espaço confinado de uma cozinha ou ao eterno passo atrás deles, o que parece estar em jogo é a escolha entre quem diz a verdade, ainda que de forma mais débil do que a devida, e o que mente despudoradamente.

No final de contas, no final dos nossos dias, são sempre a verdade e os princípios que nos salvaram. Esperemos que nas próximas eleições seja isto que esteja na cabeça e no coração dos Portugueses.

Diário de Notícias
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