A velocidade das notícias falsas

A agência Reuter tinha por norma só difundir uma noticia após obter a confirmação através de três fontes distintas e independentes. A falsa notícia de uma agressão homofóbica em Madrid, reproduzida com todo o destaque por grande parte da imprensa madrilena é um grave aviso da prudência que se tem de observar em casos tão mediáticos como os alegados delitos contra homossexuais ou mulheres, atentados ambientais, terroristas ou financeiros. A fronteira entre o boato e a realidade é muito ténue. Usar dados erróneos é algo que sucede todos os dias e é perigoso, tanto para os analistas financeiros como para os científicos que investigam a pandemia de Covid 19. Errare humanum est.

No campo judicial, as leis penais e o procedimento de acusação criminal sempre foram muito cuidadosos para evitar as condenações a priori, um dever que deve extremar-se quando se trata de alegados delitos de ódio que causam grande impacto social.

Há casos mediáticos que se difundem com uma rapidez superior à que exige a verificação exata do sucedido. Assim aconteceu com o falso ataque a um jovem homossexual em Madrid que pôs em causa a credibilidade de alguns meios de comunicação. Há que dizer que existe em Espanha uma tendência para ver fascistas, homófobos, machistas, terroristas, em cada esquina. Há como que um prazer mórbido em descobrir o sinistro e pensar no pior.

As redes sociais são especialmente propensas a difundir noticias falsas, como vemos quase todos os dias e como temos visto com a pandemia. Mas na comunicação social há que não embandeirar em arco para presumir e julgar antes do tempo quando se trata de casos duvidosos. O alarmismo é próprio da imprensa sensacionalista, não dos meios sérios, da imprensa mais pensante.

Os escândalos, como a difamação, sempre correm mais rápido do que a verdade. Quando um atentado é cometido por um estrangeiro é frequente que se faça uma associação imediata ao terrorismo islâmico. Mesmo quando se descobre que a autoria do ato é outra não raro o preconceito contra o Islão prevalece sobre a verdade.

Em alguns meios de comunicação intervém o efeito espetáculo e a necessidade de vender noticias dado o campo de minas em que se converteu o mundo da comunicação social, pressionada pelas redes sociais, os meios digitais e a perda de leitores que paguem pelas noticias. Por outro lado, os preconceitos dos leitores, as suas ideias políticas preconcebidas, o seu tribalismo alimentam essa confusão entre verdade e mentira.

O escritor israelita Etgar Keret descreve amiúde com humor esse afã em "dar por adquirido", que funciona tanto na publicidade telefónica, no mundo do marketing como na ânsia de recorrer aos preconceitos antes de publicar uma notícia e confirmá-la devidamente. Alguns dos seus artigos tratam dessa confusão entre realidade e desejo que tolda a mente de alguns repórteres impacientes e com preconceitos. Leia-se, por exemplo, "Sonhos suecos", sobre o boato difundido por um tabloide de Gotemburgo sobre um alegado assassinato cometido por soldados israelitas.

Não é nova a manipulação política das falsas notícias; sempre foi um recurso histórico. Em Espanha serviu para perseguir os judeus acusados de matar crianças cristãs para as suas celebrações religiosas, os americanos usaram-nas para mobilizar o país na guerra de Cuba com a explosão do couraçado "Maine" em 1898, os nazis utilizaram profusamente a linguagem e a imagem para propagar falsas noticias contra os judeus, que caíam no campo fértil do anti-semitismo histórico do povo e preparavam assim o holocausto.

O caso é que o boato de Madrid já provocou reacções excessivas que estão sendo utilizadas por muitos políticos e seus seguidores como arma de arremesso contra os seus adversários, pondo em evidência um problema que não o é. Assim se adia de novo p exame de assuntos muito mais graves e urgentes, como a aplicação das ajudas europeias ou a proteção da natureza no nosso país, o mais ameaçado da Europa pela desordem climática. Em definitivo, tudo isto parece mais uma manobra de evasão para contornar o debate profundo sobre a sociedade e a economia espanholas, que é hoje muito importante.

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