A vacinação e a arte da guerra: o exemplo do Médio Oriente

Vivemos um momento bélico contra um inimigo, chamado covid-19, que é implacável, mutável, incansável. Guerra é guerra, exigindo estratégia e táctica metódicas, precisas e rigorosas. Há que ser rápido como o vento, feroz como o fogo e inabalável como a montanha (parafraseando Sun Tzu, em A Arte da Guerra).

As vacinas contra a covid-19 estão disponíveis, residindo agora o campo de batalha na configuração (ou reconfiguração) e execução de um plano de vacinação que garanta a veloz inoculação da população.

O planeamento tem de ter em conta cenários diferentes, em função de dois alvos em movimento: o próprio vírus e as vacinas. Sabemos que o malfadado vírus é mutável e contém variantes. Quanto às vacinas, a estratégia de combate tem de ter em conta que: certas vacinas requerem transporte e armazenamento a 70/80 graus negativos e outras não; as vacinas aprovadas pela União Europeia carecem da administração de duas doses, mas estão em investigação e desenvolvimento vacinas que apenas reclamarão uma dose; a segurança do público determina a subsistência de um sistema de monitorização e de acompanhamento do percurso vacinal de duas doses; a rapidez do processo de vacinação demanda a invocação e o uso de recursos humanos e infra-estruturais para além do usual (por exemplo, reformados, hospitais do sector privado e farmácias); o acolhimento geral da vacina, necessário para atingir imunidade de grupo, passa por um programa de informação ao público sobre a eficácia e a segurança das vacinas, etc.

O desafio logístico é brutal. Segundo a Blommberg, desde que começou o processo de vacinação foram administradas mais de 39,7 milhões de vacinas em 51 países, a um ritmo médio de 2,44 milhões de doses por dia. Por muito que pareça monta a pouco, estimando o Duke Global Health Innovation Center que o processo de vacinação estará completo, a nível global, em 2024. Isto tendo em conta que as vacinas que foram aprovadas e disponibilizadas nas primeiras fases dos planos de vacinação incluem um percurso vacinal que só é completado ao fim de duas doses de vacina, tomadas com um certo intervalo. Tal postula a distribuição de cerca de 10 a 14 biliões de doses, com base numa população mundial de cerca de 7,8 biliões.

Mas a União Europeia aceitou o repto, tendo perfeita noção de que a recuperação económica passa pela eliminação da pandemia. Assim que a primeira vacina foi aprovada pela Agência Europeia de Medicamentos, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças disseminou um plano de vacinação e a Comissão Europeia, pela sua parte, criou um portefólio diversificado ao contratar a aquisição de dois biliões de doses vacinais contra a covid-19 com a AstraZeneca, a Sanofi-GSK, a Janssen Pharmaceutica NV, a BioNTech-Pfizer e a CureVac e a Moderna. A Comissão não colocou, à cautela, todos os ovos num só cesto.

O planeamento foi meticuloso, a nível comunitário, mas, tal como explicou recentemente a comissária de Saúde da UE, Stella Kyriakides, os atrasos surgiram, na mesma, devido a insuficiência de capacidade de fabrico. Superada essa insuficiência (o que segundo o co-fundador da Pfizer ocorrerá em Fevereiro), o sucesso do plano de vacinação de cada Estado membro não dependerá da Comissão, pois cabe a cada Estado membro colocar os seus pedidos aos fornecedores (i) das vacinas que preferir, (ii) das doses que achar por conveniente e (iii) em datas de entrega seleccionadas, sem o envolvimento da Comissão.

Não há margem para morosidade. A lentidão arrasta sérias consequências que incluem elevadas perdas de vida humana e a morte da economia e, pelo visto, tal vagarosidade é evitável.

De acordo com a Universidade de Oxford e a Global Change Data Lab, três países têm seguido um plano previamente delineado com êxito: Israel, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein.

Tais Estados do Médio Oriente já inocularam, respectivamente, pelo menos, 20,93%, 10,99% e 5,25% de suas populações - uma percentagem respeitável tendo em conta que a média mundial ronda os 0,5% por Estado.

É certo que Israel, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein têm uma densidade populacional que oscila entre 1,5 e 9,3 milhões de pessoas, o que facilita o processo de vacinação. (Mas também Portugal partilha de tal característica certo?)

Também é verdade que Israel, os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein são países de pequena dimensão (outra característica que Portugal também comunga), o que confere uma vantagem logística no transporte da vacina da BioNTech-Pfizer: a vacina tem de ser mantida a temperaturas de 70/80 graus negativos, pelo que o facto de as distâncias a percorrer serem curtas evita a deterioração em trânsito.

Acresce que em Israel, nos Emirados Árabes Unidos e no Bahrein, os dados de saúde encontram-se digitalizados e centralizados, podendo os utentes, desde que elegíveis, aceder a uma app ou a certa linha telefónica, marcar consulta e obter pronta inoculação.

De referir que dos três países citados é Israel que lidera o processo de vacinação. Israel assegurou um fornecimento colossal da vacina da BioNTech-Pfizer; pagou, ao que parece, um preço elevadíssimo para garantir tal abastecimento (tendo o Ministro da Saúde, Yuli Edelstein dito ao The New York Times que tal preço seria compensado pelo breve retorno da economia nacional ao normal); começou a testar o transporte e a distribuição da vacina a 9 de Dezembro (dez dias antes de dar início ao processo de vacinação); administrou uma dose de vacina a 17% de seus nove milhões de habitantes em menos de três semanas, etc.

Palavras-chave: planeamento e eficiência imperturbáveis.

Passando ao caso português, que nos interessa em particular, o Plano de Vacinação contra a Covid-19, apresentado em Dezembro de 2020, define os grupos prioritários a quem a vacina deve ser administrada, estabelece as fases de vacinação, concebe a logística do processo e garante a sua segurança.

Parecia estar tudo sob controlo, mas a verdade nua e crua é que à data de 22 de Janeiro de 2021 haviam sido administradas apenas 212 mil vacinas em Portugal, o que corresponde a pouco mais de cem mil indivíduos (1% da população) tendo em conta o esquema de vacinação completo com duas administrações.

A tarefa é descomunal, mas exequível, assim o demonstram os casos de Israel, dos Emirados Árabes Unidos e do Bahrein, que são dignos de atenção. Se Portugal não tenciona terminar o processo de vacinação doméstico por volta de 2024 (e só então alcançar um modicum de normalidade social e económica), urge seguir o exemplo desses países, sob a forma de uma abordagem estruturada que assegure que as vacinas se encontram rapidamente disponíveis e acessíveis ao público e no âmbito de uma estratégia que pode sofrer alterações em função de cenários previamente calculados. A recuperação social e económica do país não pode esperar. Vacinar contra a covid-19 não é um custo mas um investimento: um elevado investimento que o Estado necessita urgentemente de fazer e de rentabilizar.


Patricia Akester é fundadora do Gabinete de Propriedade Intelectual/Intellectual Property Office (GPI/IPO) CIPIL, Universidade de Cambridge.

Filipe Froes é pneumologista, consultor da DGS, coordenador do Gabinete de Crise Covid-19 da Ordem dos Médicos, e membro do Conselho Nacional de Saúde Pública.

Escrito de acordo com antiga do ortografia.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG