A vacina para a Covid-19 devia ser obrigatória?

O mais recente alerta da Organização Mundial de Saúde informa que o contágio por covid-19 é, neste momento, a principal causa de morte na Europa. Os peritos fazem uma estimativa de, até março, poderem morrer 700 mil europeus.

Mesmo que esta avaliação da OMS seja exagerada, mesmo que a mortalidade nos próximos meses venha a ser metade do valor agora apontado, é evidente que estamos perante uma tragédia muito grave.

Também é verdade que as consequências mortais desta pandemia, a nível mundial, estão bastante longe da mais grave pandemia do século passado: a chamada "gripe espanhola" provocou 50 milhões de mortos no mundo enquanto o novo coronavírus vai nos cinco milhões, dez vezes menos.

Há, porém, um padrão de avaliação desta crise que é muito diferente: um cidadão do século XXI que viva nos países desenvolvidos, onde os serviços de saúde e o desenvolvimento cientifico têm níveis relativamente elevados, não consegue aceitar mortalidades do nível como a que agora volta a ameaçar a Europa. A tolerância social face a hecatombes deste tipo é, provavelmente, 10 vezes inferior às do tempo da "gripe espanhola" - e nesse sentido as duas pandemias têm um impacto traumático nas respetivas sociedades quase equivalente.

Na Europa há países, como Portugal, que ultrapassaram os 80% de população vacinada mas há outros, segundo a OMS, que vão ainda nos 10% e a média está abaixo dos 54%. Isto é um dos motivos (não o único, note-se) para o recente agravamento da situação.

Causou-me muita impressão a forma como as pessoas que inicialmente recusaram vacinar-se foram tratadas. Generalizado o epíteto "negacionistas", os argumentos que elas apresentaram para rejeitarem o medicamento foram simplesmente ignorados, ridicularizados e caluniados.

Acontece que havia pelo menos duas razões objetivas e racionais para recear as vacinas: quando elas chegaram, há cerca de um ano, a incerteza sobre a sua segurança e eficácia era enorme e as certezas sobre ausência de efeitos secundários graves estavam estatisticamente por comprovar.

Ter laboratórios e entidades fiscalizadoras do medicamento pressionadas pelo poder político e económico a garantirem que o produto era bom não chegava.

Hoje sabemos que as vacinas, em termos gerais, são seguras, mas também sabemos que a sua eficácia não erradica a doença, ao contrário da expectativa gerada. Até outra solução, a defesa contra o coronavírus passará por tomar, várias vezes ao ano, doses e doses de vacinas. Só isso, no imediato, fará com que o número de mortos diminua. Só isso permitirá que possamos continuar a trabalhar, a andar na rua, a ir ao restaurante, ao cinema, ao teatro, a um espectáculo, ao futebol.

Quem recusou tomar a vacina vai enfrentar a ira dos outros.

A comissária europeia para a Saúde, Stella Kyriakides, já acusou os não vacinados de estarem a provocar a nova vaga da pandemia. Na Grécia, na Eslováquia, na nossa ilha da Madeira proíbem-se os não vacinados de irem a locais públicos. Na Áustria, onde um terço da população recusou vacinar-se, começou-se por tentar obrigar os não vacinados a um confinamento e agora avança-se para tornar obrigatória a vacinação. Houve mesmo quem defendesse que um não vacinado contagiado não deveria ser tratado nos hospitais públicos.

Passado quase um ano sobre o início da vacinação o direito de liberdade de escolha dos não vacinados já não pode prevalecer sobre o direito à defesa da vida ou da saúde das pessoas (sobretudo os mais velhos) que os não vacinados podem, direta ou indiretamente, afetar.

Neste momento, a solução mais respeitadora dos direitos conflituantes envolvidos, dos vacinados e dos não vacinados, não é a de tratar os não vacinados como párias da sociedade. Um ano depois de ter sido respeitado o seu direito de escolha individual à não vacinação estamos assim: mais 700 mil mortes nos próximos meses. Isto torna inquestionável que o melhor para todos é tornar a vacinação obrigatória e acabar com as restrições aos não vacinados.

Jornalista

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