A União Europeia não é um Estado, nem um império, nem uma federação clássica. É uma construção política singular, moldada por crises e oportunidades, que ao longo de sete décadas conheceu diferentes fases de evolução. A cada fase correspondeu um contexto histórico específico e a uma função estratégica distinta. Hoje, ao entrar numa nova etapa, a Europa enfrenta uma escolha decisiva: adaptar-se ao novo ambiente internacional ou aceitar uma progressiva perda de relevância. A primeira fase da integração europeia nasce das ruínas da Segunda Guerra Mundial. O objetivo fundamental era garantir a paz no continente, tornando a guerra impossível através da interdependência económica. Foi também um projeto geopolítico onde a Europa Ocidental beneficiou de uma divisão clara de responsabilidades: a segurança militar era assegurada pela Aliança Atlântica e pelos Estados Unidos, enquanto a então Comunidade Económica Europeia promovia prosperidade, previsibilidade económica e estabilidade política. As adesões do Sul da Europa, incluindo Portugal, consolidaram democracias recentes e ancoraram definitivamente esses países no espaço ocidental. Tratava-se de uma Europa sobretudo económica mas plenamente adequada ao seu tempo. Com o fim da Guerra Fria iniciou-se uma segunda fase particularmente favorável ao projeto europeu. O multilateralismo funcionava, a cooperação internacional era valorizada e a globalização avançava num clima de confiança. A União alargou-se à Europa Central e de Leste, aprofundou relações com África, Ásia e América Latina e afirmou-se como modelo de integração pacífica, desenvolvimento económico e promoção da democracia. Poucos contextos internacionais estiveram tão alinhados com a identidade, os valores e os instrumentos europeus como o da década de 1990. O século XXI inaugurou uma terceira fase, marcada por crises financeira e do euro, pressões migratórias, Brexit, pandemia, guerra na Ucrânia, choques energéticos e rivalidades entre grandes potências colocaram a União sob tensão permanente. Ainda assim, a Europa revelou capacidade de adaptação. Criou novos instrumentos, reforçou a coordenação económica, respondeu à pandemia com financiamento comum e apoiou a Ucrânia política, económica e militarmente. A integração avançou sobretudo por necessidade, mas a UE foi capaz de responder aos desafios. Hoje, a União vive uma quarta fase, qualitativamente diferente. Externamente, enfrenta um mundo mais fragmentado, competitivo e instável, em que a solidariedade transatlântica já não pode ser assumida como garantida. A relação com os Estados Unidos continua central, mas tornou-se mais contingente, mais transacional e mais vulnerável. Internamente, cresce a pressão de governos populistas e eurocéticos, o que fragmenta a visão sobre o papel da Europa e dificulta consensos em áreas centrais como defesa ou política externa. É neste contexto que nos lembramos da evolução descrita por Darwin, onde as espécies, como as instituições, que não se adaptam ao ambiente em que operam, perdem relevância e influência. Se a UE continuar refém de vetos sistemáticos e de uma fragmentação política crescente entre os Governos, arrisca tornar-se um ator secundário num sistema internacional moldado por outros. Adaptar-se implica aceitar que nem todos os Estados avançam ao mesmo ritmo e que, em domínios estratégicos, grupos de países tenham de poder avançar através de formas reforçadas de cooperação. A Europa já provou, várias vezes, que sabe adaptar-se quando é necessário. Na fase atual, essa adaptação deixou de ser uma opção política entre outras e tornou-se uma condição de sobrevivência num mundo cada vez mais exigente. Professor Convidado UCP/UNL/UÉ