A única realização de Bolsonaro

No dia 6 de dezembro de 2018, logo a seguir às eleições que elegeram Jair Bolsonaro presidente da República, o Coaf, órgão público que examina corrupção financeira, divulgou um relatório apontando movimentações de cerca de 230 mil euros, num ano, na conta de Fabrício Queiroz, motorista do senador Flávio Bolsonaro, primogénito de Jair.

Como as movimentações pareciam incompatíveis com o rendimento de um motorista, o Coaf investigou e descobriu que oito funcionários do gabinete de Flávio, logo após receberem os salários, fizeram 48 transferências num mês, para a conta de Queiroz, que as repassou ao senador. Mais tarde, soube-se que também Michelle Bolsonaro, a primeira-dama, recebeu 27 depósitos de Queiroz na sua conta.

Não foi, portanto, difícil ao Coaf concluir que os funcionários, falsos, serviam apenas para abastecer os bolsos dos Bolsonaro - o chamado esquema da "rachadinha".

Segundo o Ministério Público (MP), Flávio era "líder de uma organização criminosa (...), com alto grau de permanência e estabilidade, entre 2007 e 2018, destinada à prática de desvio de dinheiro público e lavagem de dinheiro".

Sim, lavagem de dinheiro: o MP apurou que o primogénito do presidente se tornou sócio de uma loja de chocolates de fachada, "com a finalidade de acobertar a inserção de recursos decorrentes do esquema sem levantar suspeitas".

Os assessores fantasmas dividiam-se em núcleos familiares. Os Queiroz, cuja mulher e duas filhas do motorista, uma delas personal trainer de famosos no Rio de Janeiro, jamais pisaram o gabinete de Flávio, e os Bolsonaro, que, ao longo de 28 anos, acumularam um total de 102 primos, tias, ex-cônjuges, sogros e cunhados como falsos funcionários nos seus gabinetes.

Bolsonaro, derrotado na economia, na pandemia, na Educação, no ambiente e até na segurança pública, pode celebrar a sua única realização: a blindagem jurídica da famiglia.

Além dos Nóbrega, o núcleo em torno de Adriano da Nóbrega, chefe da milícia Escritório do Crime, a mesma que empregou por anos o suposto assassino de Marielle Franco. Nóbrega, um dos mais mediáticos foragidos do Brasil, por crimes como assassinato, foi homenageado repetidas vezes pelo amigo Flávio, que empregou no seu gabinete a mãe e a ex-mulher do miliciano.

Testemunha-chave do processo, Nóbrega apareceu finalmente, a 9 de fevereiro de 2020. Mas já cadáver, após confronto com a polícia do estado da Bahia, sem possibilidade de contar o que sabia da "rachadinha".

Coprotagonista do caso, Queiroz também andou desaparecido, popularizando o meme "Onde está o Queiroz?", para escapar dos depoimentos à polícia. Só foi descoberto, mais de um ano depois, escondido numa casa do advogado de Bolsonaro.

O outro protagonista, Flávio, não só não desapareceu como se manteve ativo e altivo no Senado mesmo depois de se saber que comprou 20 imóveis em 14 anos, dois dos quais por menos da metade do valor de mercado e vendidos 450% mais caros, e alguns em dinheiro vivo. O último é uma mansão de 2500 m2 em Brasília, adquirida por quase um milhão de euros, em junho de 2021, apesar de um senador ganhar cerca de 4,7 mil euros por mês.

Mas este texto serve, no fundo, como longa introdução para uma curta sentença: três anos e meio depois da investigação do Coaf e de todas as provas acima descritas, o Tribunal de Justiça do Rio arquivou a denúncia contra Flávio, na terça-feira, dia 17.

E Bolsonaro, derrotado na economia, na pandemia, na Educação, no ambiente e até na segurança pública, pode celebrar a sua única realização: a blindagem jurídica da famiglia.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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