A União Europeia não tem vergonha?

Aliou Candé, um rapaz de 28 anos, saiu da Guiné-Bissau a pedir boleia nas estradas para tentar emigrar para a Europa. Acabou, um ano e meio depois, abatido a tiro numa prisão secreta na Líbia. A cadeia, uma entre 15 semelhantes instaladas naquele país, gerida por milícias tribais (não há um verdadeiro governo na Líbia), é paga pela União Europeia e serve para esconder da Europa o problema das migrações.

A reportagem publicada a 28 de novembro pela revista New Yorker - uma das instituições jornalísticas mais prestigiadas nos Estados Unidos da América - parece ter sido ignorada pelos media europeus, mas é uma acusação terrível para o Velho Continente.

A conclusão inevitável é esta: os dirigentes europeus têm na boca a defesa dos direitos humanos, mas nos atos promovem as violações mais desumanas, sem piedade, procurando apenas garantir que os seus eleitorados não tenham conhecimento disso.

Os imigrantes que tentam entrar pelo Mediterrâneo na Europa, amontoados em botes de borracha, correm o risco de serem apanhados pela Guarda Costeira da Líbia. Não se trata de um exército do Estado líbio - na verdade quase não há Estado organizado naquele país. Segundo a reportagem, trata-se de uma organização paramilitar, ligada às milícias que ali pululam, que a União Europeia equipou e treinou não só para capturar imigrantes, mas também para sabotar as organizações humanitárias que procuram fazer o resgaste dos que correm perigo de vida.

Depois de capturados, estes migrantes vão para as prisões secretas na Líbia, onde os detidos são amontoados às dezenas em celas pequenas, por tempo indeterminado, sem julgamento, sem acusação, nada.

As práticas ali comuns incluem tortura com choques elétricos, estupro de menores pelos guardas, extorsão de 500 dólares em troca da liberdade, venda de homens e mulheres para redes de trabalhos forçados. É toda uma panóplia de horrores cuja ideia é criar um inferno na Líbia, da qual a União Europeia lava as mãos, para dissuadir as pessoas de irem para a Europa.

Em 2015, a União Europeia criou um fundo para ajudar África no valor de seis mil milhões de dólares. Uma parte irá para projetos de mérito, mas muitas verbas dessa fonte estão a ser usadas de forma corrupta: a reportagem relata, por exemplo, que em 2018 esse dinheiro foi entregue para satisfazer uma "lista de compras" com presentes para as autoridades do Níger, que incluíam automóveis, aviões e helicópteros em troca da promoção de políticas anti-imigrantes. Outra parte do dinheiro serviu para criar um centro de espionagem para a polícia secreta do Sudão. Parte pagou estas prisões e estas milícias na Líbia. A reportagem acusa a Comissão Europeia de distribuir esse dinheiro à discrição, sem escrutínio do Parlamento Europeu.

Aliou Candé chegou em janeiro de 2020 a Marrocos e até queria vir para Portugal - ele tinha cá família e tentou mesmo aprender português sozinho, pois na Guiné-Bissau não tinha maneira de ser ensinado. Pediram-lhe três mil euros para fazer a travessia de mar para o continente europeu. Ele saíra da Guiné apenas com 600 euros no bolso.

Quando soube que na Líbia se fazia a travessia mais barata, foi lá tentar a sorte, mas acabou por se meter num inferno que lhe custaria a vida: foi capturado pela tal Guarda Costeira da Líbia, provavelmente informada por um serviço europeu, o Frontex, a agência que coordena a vigilância das fronteiras exteriores e que é acusada, nesta reportagem, de passar informações sobre travessias de botes de imigrantes a estas milícias.

Na prisão, Candé seria abatido na sequência de uma revolta de prisioneiros na qual não estava envolvido.

Lembro os dirigentes europeus que criticaram Trump porque queria construir um muro contra migrantes mexicanos.

Lembro os governanets europeus que se atiraram à China por causa da situação das minorias de Xinjiang.

Lembro os políticos europeus que exigem sanções económicas à Bielorrússia pelo que se passa no país e com os migrantes da fronteira com a Polónia.

Lembro sei lá que outras moralistas tiradas, sei lá quantas ameaças e sei lá quantas retaliações contra inúmeros países do mundo, sempre em nome da defesa dos direitos humanos.

Pura hipocrisia, pura crueldade, pura mentira.


Jornalista.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG