A ternura dos "60"

À medida que o mercado de trabalho se estreita e a contenção obriga a racionalizar cada vez mais os recursos humanos, para além do flagelo do desemprego que tal acarreta, começa a emergir no nosso tecido organizacional uma outra realidade; o que fazer com as pessoas com mais de 60 anos - o(a)s tais, que estão conotado(a)s com o mito de que não gostam de trabalhar à mediada que a idade da reforma se aproxima e que são muito caros para a energia que as organizações nos tempos modernos precisam? Enfim, estereótipos baseados em idade que estão cada vez mais impregnados na nossa sociedade.

É inegável que a renovação é a característica fundamental para alimentar qualquer sistema e o organizacional exige ainda mais, face ao ambiente cada vez mais complexo diversificado e competitivo. Mas para dar respostas sustentadas a estes desafios, as organizações não podem apostar em metas curtas como se de corridas de velocidade se tratasse. É preciso dar resposta a esta nova "era" caracterizada pelas redes de uma forma sólida e consistente como se de uma maratona se tratasse cuidando da passagem de testemunho e para isso, nada melhor que fazer a "gestão de ciclos", ou seja, garantir que a sabedoria, a inteligência prática, nesta espiral incontornável de que os novos de hoje são os velhos de amanhã, não seja desbaratado e por isso, parece-me vital gerir com "inteligência" o(a)s sessentões (onas) para que os laços entre gerações sejam mais consistente e solidários e tal, passa por evidenciar os seguintes aspetos:

- Mostrar aos mais velho(a)s que o capital de experiência acumulado é devidamente valorizado;

- Aproveitar a capacidade inesgotável do ser humano em "dar" para ensinar os mais novos:

- Incumbir os mais velho(a)s de mentoria às gerações mais novas;

- Transmitir a riqueza dos valores organizacionais às gerações mais novas;

- Ensinar gestão que não se aprende nos bancos das academias:

Se é verdade que a esperança média de vida vai aumentando e o tempo para a reforma tende a dilatar-se, quebremos os preconceitos e é hora para olhar de forma realista e pragmática para as vantagens que estes recursos podem acrescentar e que insofismavelmente são:

- menor propensão em mudar de organização;

- maior lealdade ao empregador;

- maior postura de responsabilidade e ética;

- menor absentismo;

- menor quantidade mas maior qualidade;

- interfaces privilegiados para equipas consultoras.

Paradoxalmente, se olharmos para a realidade civilizacional ocidental em contraste com as tribos africanas, apesar do enorme fosso cultural que as separa, encontramos duas figuras míticas - o ancião e o feiticeiro - que simbolicamente evocam algo em comum, o lugar à sabedoria (inteligência prática e cristalina)! Saibamos tirar proveito desta vantagem competitiva. As estatísticas recentes do IPSS (ISCTE) fornecem dados reveladores; o primeiro, a idade mediana da população portuguesa atual situa-se no 34,5; o índice de dependência dos idosos variou de 1960 (12,4%) para 2020 (34,5%), a taxa bruta de crescimento populacional também tem decrescido e por último, segundo os dados da Portada, o índice de envelhecimento variou de 2000 (98,8) para 2020 (165,1) o que reflete que o problema demográfico em Portugal está a roçar o caminho da "tempestade perfeita" quer na sociedade em geral, quer sobretudo nas Organizações aliás, como os resultados preliminares do Censos 2021 parecem indicar . Dinamizar políticas que de facto permitam o aproveitamento deste capital intelectual do(a)s seniores pode ser uma janela de oportunidade para a transmissão do conhecimento, para o equilíbrio territorial, para facilitar o alinhamento cultural, para o aumento da reputação e para potenciar o comprometimento organizacional e excelente oportunidade da sociedade em geral, ter "curadore (a) s sociais" que ajudem nos processos de inclusão e da mitigação da privação social e material que as estatísticas também apontam um decréscimo preocupante sobretudo, agudizado com o impacto da pandemia.

Nota final: para quem pensa que o(a)s seniores não têm destreza digital é porque não conhece a "tabuada" dos sites e das redes que esta geração tão bem sabe "navegar".

Docente universitário

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