A tecnologia está a redefinir o combate ao cancro?

A verdadeira inovação em saúde não está apenas na tecnologia em si, mas como é usada para oferecer uma medicina mais precisa e mais personalizada, também no tratamento do cancro urológico, um dos que mais impacto tem em Portugal e no mundo. Saiba como.
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O cancro urológico continua a ser um problema de grande impacto na nossa sociedade. Doenças como o cancro da próstata, da bexiga ou do rim afetam milhares de pessoas todos os anos e colocam desafios não só médicos, mas também humanos, familiares e sociais. Perante este cenário, uma das grandes prioridades é clara: diagnosticar melhor, tratar de forma mais eficaz e preservar, sempre que possível, a qualidade de vida.

Nos últimos anos, a tecnologia tem assumido um papel decisivo na uro-oncologia. Longe de ser uma moda, a integração de novos sistemas de imagem, cirurgia minimamente invasiva e inteligência artificial responde a necessidades muito concretas: maior precisão, decisões mais rápidas e tratamentos mais adaptados a cada pessoa.

Um dos avanços mais relevantes verifica-se no diagnóstico e caracterização do cancro da próstata, o tumor maligno mais frequente no homem em Portugal, com cerca de 7500 novos casos por ano.

Hoje, a combinação de exames de imagem avançados com biópsias de fusão permite não só detetar o tumor com maior rigor, mas também identificar a sua localização exata dentro da próstata.

Este passo é fundamental para selecionar corretamente os doentes e abrir caminho a abordagens como a terapia focal, que trata apenas a área afetada pelo tumor, preservando o restante órgão. Esta estratégia permite reduzir efeitos secundários e adaptar o tratamento ao perfil real da doença.

No campo cirúrgico, a cirurgia robótica representa outro marco importante. Ao oferecer maior precisão e controlo ao cirurgião, contribui para intervenções mais seguras e recuperações mais rápidas. Em áreas como a cirurgia renal, técnicas inovadoras como a RSD (Renal Sutureless Device) mostram como a tecnologia pode ajudar a preservar a função do rim e a simplificar procedimentos complexos, sempre com foco no benefício do doente.

Também na radioterapia, os avanços são evidentes. Sistemas baseados em inteligência artificial, como o AutoContour, permitem delimitar automaticamente os volumes a tratar com grande precisão. Isto reduz o risco de atingir tecidos saudáveis e torna os tratamentos mais eficientes e seguros.

Importa sublinhar que estas ferramentas não substituem o médico. Pelo contrário, funcionam como apoio à decisão clínica, permitindo que o especialista se concentre no que continua a ser essencial: avaliar cada caso, esclarecer dúvidas e escolher, em conjunto com o doente, a melhor opção terapêutica.

Neste contexto de rápida evolução, torna-se cada vez mais necessária a atualização contínua, a partilha de experiência e o debate entre profissionais. É com esse espírito que surgem iniciativas como a reunião UroNext que organizamos em parceria com a Clínica Universitária de Navarra, com o objetivo de promover a discussão aberta sobre o papel da tecnologia na uro-oncologia atual.

Mais do que falar do futuro, o desafio é aplicar, de forma responsável e criteriosa, as soluções que já existem. Porque a verdadeira inovação em saúde não está apenas na tecnologia em si, mas na forma como é usada para oferecer uma medicina mais precisa, mais personalizada e mais próxima das pessoas.

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