A 'task force' do novo governo

A semana que agora se inicia marca o tiro de partida do XXIII Governo Constitucional. É a terceira vez que o primeiro-ministro António Costa enfrenta o desafio de reerguer Portugal.

Em 2015, contra todas as expetativas, inverteu uma estratégia de austeridade, imposta por uma troika cuja tese assentava na salvação através do empobrecimento. Em 2020, com a chegada da pandemia, liderou o país de forma modelar, evitando uma hecatombe sanitária, social e económica que nos poderia ter atirado ao tapete. Esse desempenho foi premiado nas urnas, com uma maioria absoluta, criando condições para um ano de 2022 de grande crescimento, uma espécie de ano da libertação. Assim não o quis Vladimir Putin, que já andava há algum tempo a contaminar os mercados da energia e que tomou a inacreditável decisão de invadir um país europeu. Estamos, portanto, de novo imersos numa crise internacional. E esperamos de António Costa o dinamismo, o otimismo e a liderança que evidenciou nos últimos seis anos.

É claro que estamos todos dependentes do desfecho da guerra na Ucrânia. Sou dos que acreditam que até ao fim da primavera teremos acordo de paz e que, no verão, estaremos já a planear a reconstrução. Este conflito é simplesmente insustentável para a Rússia. No entretanto, o novo governo tem em mãos os desafios de mitigar as ondas de choque do conflito, de forma a que 2022 não fique comprometido pelos riscos que se antecipam, incluindo os financeiros.

Com os custos a disparar, sobretudo nos combustíveis, no gás, na eletricidade, nas matérias primas e nos materiais intermédios, as empresas tendem a adiar os seus projetos de investimento, reorientando os recursos para a operação. Isto significa que a chegada ao terreno dos programas de apoio ao investimento é crítica para a manutenção da capacidade de produção e da competitividade dos agentes económicos.

O primeiro-ministro referiu-se por várias vezes a uma task force na governação, orientada para a recuperação pós-pandemia. Hoje, mais do que nunca, essa necessidade ganha relevância. A execução musculada do Plano de Recuperação e Resiliência e do Portugal 2030, bem como o fecho do Portugal 2020, requerem uma concentração de esforços que Costa não descurou quando desenhou o executivo.

A notícia de que serão concentrados no edifício da Caixa Geral de Depósitos os ministérios da Presidência do Conselho de Ministros, da Economia, das Infraestruturas, do Ambiente e da Coesão mostra que o primeiro-ministro pretende articulação, proximidade, propósito e eficácia na execução dos mais de 50 mil milhões de euros que, nos próximos anos, terão de chegar ao país, leia-se à economia real e aos serviços públicos. Este elenco dos ministérios que mais relevam para a tarefa teve uma baixa esperada, uma vez que António Costa eliminou, sem surpresa, um ministério do Planeamento que nunca soube qual era o seu lugar e, portanto, foi-se paulatinamente autoextinguindo. Uma morte anunciada, que só peca por tardia.

À cabeça desta task force estará Mariana Vieira da Silva, uma das mais talentosas políticas que se deram a conhecer ao país nos últimos anos. O novo ministro da Economia, António Costa Silva, é um estreante e veremos se a sua costela de pensador vem acompanhada de pragmatismo na execução. Quanto a Duarte Cordeiro, no Ambiente, Pedro Nuno Santos, nas Infraestruturas, e Ana Abrunhosa, na Coesão, as expetativas só podem ser altas face à qualidade do seu desempenho no executivo que agora termina funções.


Professor catedrático

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