A Superliga no fim do mundo

Proclamar que vivemos tempos sem precedentes e que algo-deve-ser-feito costuma ser uma estratégia eficaz como polémica opinativa ou propaganda política, mas a sua aplicação enquanto gambito publicitário é mais limitada. A retórica apocalíptica funciona, mas tem de ser calibrada de modo mais cuidadoso. Sentirmo-nos receosos e desesperados pode levar-nos a querer comprar urgentemente qualquer coisa (uma arma semi-automática, um bilhete para uma conferência sobre a liberdade de expressão, mil rolos de papel higiénico), mas o impulso também pode ser refreado se desconfiarmos que o desespero de quem vende é ainda maior que o nosso.

As 48 horas de vida dessa sumptuosa calamidade administrativa chamada Superliga Europeia (#RIP) forneceram uma excelente oportunidade para observar em cativeiro várias gradações de desespero - desespero eufórico, desespero resignado, desespero inepto, etc. - e em nenhum lado a concentração foi mais intensa do que na entrevista televisiva que Florentino Pérez, presidente do Real Madrid e um dos cérebros do projecto, concedeu na noite de segunda-feira.

Com toda a autoridade conferida pelo estatuto de presidente do maior clube do mundo (©), Florentino falou durante largos minutos e mostrou largas verdades: a distância estratosférica que o separa da realidade; a compatibilidade fundamental entre uma reputação de bom gestor e uma mórbida e aflitiva mediocridade e a forma como a linguagem da aristocracia monetária parece sempre preventivamente estropiada por algoritmos de tradução automática. "É isto que vai salvar o futebol: é a única solução", garantiu o homem que em 2003 vendeu Makelelé ao Chelsea por "não saber jogar de cabeça".

Mais ou menos a meio de Orgulho e Preconceito, a protagonista, Lizzie Bennet, é vítima de um dos mais desastrosos pedidos de casamento em toda a literatura. Um dos argumentos que Mr. Collins, o pretendente, usa para a convencer é: "Estou convencido de que esta união aumentaria consideravelmente a minha felicidade." Florentino vendeu a Superliga ao mundo com argumentos da mesma ordem, prometendo que algum desse dilúvio de felicidade adicional sentida pelo Real Madrid iria gotejar noutras direcções. A alternativa é o futebol morrer.

Mesmo que aceitemos as suas premissas mais dúbias, há algo desconcertantemente infantil - e ofensivamente infantilizante - nos raciocínios que ofereceu para justificar a solução encontrada. É como descobrir que os gelados de chocolate são deliciosos e depois construir um modelo de negócio baseado na premissa de que as pessoas vão perder o interesse nos gelados de chocolate a não ser que possam comer gelados de chocolate a todas as refeições, todos os dias, para sempre.

Há aqui uma dose relevante de estupidez, mas é uma estupidez importada e não inteiramente desligada do mundo. É a mesma lógica totalizante encarada como única medida de sucesso noutras áreas, em que cada ramo de negócio anseia por reclamar toda a atenção e monopolizar toda a fidelidade disponível. Implícita ou explicitamente, o objectivo da Amazon é tornar-se todo o comércio, o objectivo da Google é tornar-se toda a internet, o objectivo da Disney é transformar todo o cinema em homens de collants a destruir edifícios sexistas. A Superliga foi um esforço avidamente trapalhão para transformar uma parte aleatória do futebol no único futebol que interessa.

O que o futebol está a descobrir é a mesma dinâmica dupla enfrentada nos últimos anos por outras indústrias culturais: o fim de uma monocultura estável e os limites de uma estratégia de crescimento constante. Numa coisa Pérez tem razão, e o seu desespero é justificado: as alterações que estas dinâmicas iniciaram e a pandemia acelerou comprometeram seriamente o seu modelo de gestão desportiva, que consiste em ordenar ao chauffeur que estacione a limousine à frente da pastelaria, apontar para o maior éclair visível na montra e informar um pequeno exército de advogados, intermediários e assistentes pessoais: "Eu quero aquele bolo."

A substituição das bases clássicas de adeptos locais por consumidores globais pode acontecer, mas será um fenómeno orgânico e multigeracional, e qualquer tentativa de o acelerar por decreto encontrará sempre enorme resistência. Os adeptos podem ter um grau considerável de flexibilidade na sua relação com o jogo e disponibilidade emocional para ir acomodando mudanças graduais, mas nunca vão aceitar pacificamente tendências que os impeçam de continuar a odiar as pessoas que odeiam desde a infância. Nada une adeptos de Tottenham e Juventus a não ser algumas contingências de sorteio na última década; mas há adeptos do Liverpool e Everton cujos avós se esfaquearam mutuamente com facas herdadas dos bisavós, e dinheiro algum paga esses comoventes elos de intimidade.

Dinheiro: a sua opressiva inevitabilidade em toda esta discussão também levou ao ressuscitar de argumentos e confusões antigas, que consolidam um sortido de emoções cíclicas num único programa de nostalgia falsificada: a ideia de que o desporto era mais virtuoso no passado - quando era mais modesto, ou quando havia menos televisão, ou menos milhões, ou quando as pessoas eram mais simpáticas, ou a relva mais verde, os animais mais fofinhos.

O dinheiro não apareceu anteontem no futebol e nem sequer os bilionários messiânicos com vontade de enterrar vastas somas num brinquedo são uma novidade. Pelo contrário, modelos como os do Arsenal, Liverpool e Man Utd - em que compras alavancadas tentam transformar legados históricos numa máquina de gerar dividendos - são desenvolvimentos mais recentes e mais nocivos a longo prazo.

A noção de que o dinheiro tem um efeito de distorção no futebol não é inteiramente espúria: distorce tanto que por vezes se distorce a si própria. No programa É ou Não É (RTP1), dedicado ao rescaldo da Superliga, Miguel Poiares Maduro sintetizou um sentimento comum: "Há uma correspondência quase total entre os cubes que costumam chegar aos quartos-de-final [da Champions] e os clubes mais ricos... Há excepções... o Shakthar, o Porto... mas são excepções... Infelizmente, no desporto, quem tem mais dinheiro tem muito mais chances de ganhar."

Aquele "infelizmente" é um advérbio estranhíssimo se pensarmos nele mais de cinco segundos. Dizer que os clubes com mais dinheiro são os que ganham mais vezes é dizer que os clubes com dinheiro para pagar os melhores jogadores são os que ganham mais vezes; apenas outra maneira, portanto, de dizer que os jogadores mais competentes são, no fim de contas, os mais bem recompensados. Pode haver muitos problemas na maneira como o futebol se organiza, desenha as suas competições e distribui os seus ganhos e perdas, mas haverá melhores meios para os encontrar e resolver do que esta insurgência automática contra um dos raros vestígios de um sistema racional: o de que os melhores jogadores recebem a maior fatia dos proveitos.

De vez em quando isso não acontece, por vários motivos: ineficiências várias, azares, incompetências e o facto de haver sempre pessoas como Florentino Pérez, dispostas a confundir o maior éclair com uma dieta saudável. A Superliga, nos termos em que foi apresentada, era uma tentativa para fugir a isto e criar uma classe protegida: uma aristocracia arbitrária (e permanente) blindada contra a falta de sorte, a falta de jeito, as bolas ao poste, as contratações falhadas, os maus jogos, as más épocas, as más décadas. Uma elite protegida para sempre dos seus cíclicos episódios de incompetência - uma elite que, por definição, nunca mais poderia voltar a ser incompetente. E como esta semana demonstrou, quando funciona em cenários controlados, onde não cria vítimas colaterais, as elites incompetentes são demasiado divertidas para querermos abdicar delas.


Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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