Chegados ao fim da semana, parece que já nem houve eleições autárquicas em Portugal, com mudanças na Câmara de Lisboa, uma recuperação do PSD, um esvaziamento do Bloco, uma deceção do PAN, um tiro ao lado da Iniciativa Liberal e um "não se sabe muito bem que contas fazer" do CDS. E um lento agonizar autárquico da CDU. E uma vitória com sabor amargo do PS..Já foi..Rendeiro deixou Londres a caminho do Belize - onde raio é o Belize?, foi a pergunta que mais ouvi por estes dias - porque acha a justiça injusta e resolveu autoabsolver-se e pirar-se para longe, com uns quantos milhões numa, claro, conta offshore que lhe garantem margaritas, massagens na praia e luau à discrição. No Belize, o dinheiro rende mais, não há engarrafamentos e ainda pode, de vez em quando, nos círculos "britânicos" daquele país das Caraíbas, vestir os fatos feitos à medida, pôr uma gravata e, diante de um gin tónico, conversar sobre negócios e banca com ilustres turistas internacionais de passagem. Ele, em breve, será belizenho, e talvez ainda volte a uma carreira na área das finanças, não vá o Belize precisar de conselhos na matéria..Debaixo de um toldo, Rendeiro deixa um rasto de dívidas, um buraco de 700 milhões no BPP mas, acima de tudo, deixa-nos uma imagem de uma justiça lenta, ingénua, crédula e incompetente. E, no país, ajuda a cimentar a ideia de que a justiça não é igual para ricos e pobres, que é fácil quando se tem dinheiro, que só os pilha-galinhas é que vão presos e que os "grandes" escapam sempre. O terramoto Rendeiro e a salvífica desculpa da "separação de poderes" deixaram a sociedade de boca aberta e abrem caminho fácil para os populistas e demagogos que, com exemplos destes, ganham terreno. Depois, queixem-se..Enquanto isso..No mesmo dia, o ministro da Defesa resolveu adiantar-se no calendário e antecipar, à bruta e sem aviso prévio uma combinação acertada há muito entre o almirantado e Belém. O Chefe do Estado Maior da Armada (CEMA) deixaria a missão antes do fim do mandato, para dar lugar a outro almirante que, por razões de calendário, teria de ser nomeado antes de passar à reserva. Eis senão quando, numa noite pós-autárquicas, Marcelo jantava com "estrangeiros" quando foi interrompido, com surpresa, por uma notícia. A de que Mendes Calado, o CEMA nomeado em fevereiro, seria exonerado, para dar lugar a Gouveia e Melo, o Sr. Task Force, que nessa mesma manhã tinha dado como terminada a missão, também de forma abrupta e repentina, quando faltavam ainda umas décimas para os 85% de vacinados. "Qual é a pressa?", perguntou, em tempos, um líder socialista a António Costa. Qual é a pressa? Gouveia e Melo não merece e não precisa desta medalha que lhe impuseram. E o governo, se queria uma manobra de distração, podia ter encontrado outra que não fosse uma carambola de disparates que levaram o Presidente da República a ter de vir dizer "quem manda". Humilhado o governo, em público, 24 horas depois de a notícia ser conhecida, Costa e o seu (ainda?) ministro da Defesa foram a Belém. À noite. Dar explicações a Marcelo que, de manhã, tinha enumerado os "três equívocos" no processo. A nota, lacónica, da Presidência da República, e o silêncio do governo, não auguram nada de bom. Pelo menos, durante 24 horas, esteve em causa o "regular funcionamento das instituições". E a partir daqui? Marcelo já não concorre a mais mandatos e Costa, por causa das tais autárquicas - lembram-se? Houve eleições - não tem a confiança que tinha no dia 26..Entretanto..O presidente da CP, que ninguém sabia quem era até se ter demitido - sim, mais uma fuga, desta vez não para o Belize - mas que os sindicatos dizem que estava a ser "o melhor presidente da CP", bateu com a porta porque não se compram as carruagens prometidas, porque João Leão, o ministro das Finanças, não assina a ordem. Ora, outro ministro, o dos comboios, Pedro Nuno Santos, veio dizer que sim, que a CP tem razão, que há dinheiro e é preciso mandar vir a encomenda. E que percebia perfeitamente que o presidente da CP se fosse embora. A guerra abriu-se entre o putativo candidato a líder do PS no pós-costismo, que parece cada vez mais perto, e o ministro com a função herdada do agora governador, que é "cativar, cativar". Mais uma vez, Costa não se viu, não se ouviu, nada disse. E, assim, temos mais uma trapalhada por explicar, desta vez entre dois ministros do mesmo governo..Eu, se um dia fugir deste país de faz de conta, pode ser que também seja para o Belize..Jornalista