A santidade é uma tômbola

Nos últimos tempos têm-se multiplicado as ações de caridade revestidas por uma excitação democrática. Supermercados, sociedades de advogados e seguramente outras instituições no comércio apresentam aos seus clientes diferentes projetos potencialmente merecedores da tal caridade e a sua clientela, por um momento magnificamente empoderada, pode escolher, através do seu voto, quais aqueles que devem ser efetivamente contemplados com essas benesses intangíveis da responsabilidade social. Uma espécie de fábrica instantânea de santidade construída sobre uma base democrática. Ou o marketing convertido em subespécie da hagiologia.

Talvez alguém, num qualquer departamento de marketing ou agência de comunicação, tenha achado isto uma excelente ideia. Do género, já que temos de gastar dinheiro e tempo nisto de ajudar os pobrezinhos, vamos ao menos envolver os nossos clientes nesse percurso de forma a ficcionarem que assumem algum controlo e capacidade de decisão no que fazemos. Afinal, toda a gente adora decidir ou fingir que decide. Afinal simular decisões é um desporto nacional, comparável ao futebol de 11. Para mais quando essa decisão é construída com essa legitimidade incomparável que é o direito de voto, direito duramente conquistado pela luta revolucionária, direito adquirido com sangue e lágrimas - após a compra de meia dúzia de pacotes de leite.

O extraordinário é que parece que a ninguém assomou um pequeno laivo de pudor quando pensaram nisto e o concretizaram. Devem a pobreza e as necessidades de pessoas serem postas num boletim de voto, como alternativas, em comparação e competição umas com as outras, expostas numa feira de vencidos e de vencedores? Por ninguém perpassa um sopro de humilhação só de pensar nesta possibilidade?

E um cliente, quando recebe o talão, a bola, a ficha ou o que quer que seja que o legitima para votar, não sente vergonha, a sua e a alheia, por ir escolher os seus pobrezinhos de eleição, literalmente?

Sei que o Natal é uma construção de séculos como o tempo adequado para se pensar nos pobrezinhos e exercer a piedade de forma histriónica. Mas há determinados tipos de perturbações da personalidade, até da personalidade das pessoas coletivas, que têm de ser controlados. Senhores do marketing, há tanta literatura de autoajuda nas bombas de gasolina que talvez haja por lá um parágrafo que vos ajude. Ou, se preferirem, ponham-se a competir entre vós num boletim de voto, com as vossas limitações e dificuldades bem expressas, e peçam a quem comprar um quilo de bananas que vote. Mas só pode escolher um. Neste mundo só pode haver um vencedor. Até na miséria.

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

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