A vida, com a sua imprevisibilidade, ensina-nos lições inesperadas. Uma amiga minha sofreu um acidente aparentemente banal: uma deslocação do cotovelo direito que transformou gestos quotidianos em obstáculos quase intransponíveis. Durante três meses, abrir um frasco ou levantar a tampa de um recipiente tornou-se um desafio hercúleo. Apesar da dedicação da família e dos amigos, que se mobilizaram para providenciar refeições caseiras, muitas dessas iguarias permaneciam inacessíveis. Foi então que o restaurante do bairro - discreto, familiar, quase invisível na rotina - se revelou um verdadeiro herói, oferecendo pratos deliciosos e práticos que aliviaram o peso dessa convalescença.Este episódio, aparentemente trivial, encerra uma verdade que frequentemente ignoramos: a restauração não é um luxo. É uma infraestrutura social silenciosa, um elo vital na cadeia do bem-estar coletivo.Recentemente, ouvi num podcast a tese de que Portugal sofre de “excesso de restauração”. Que há cafés a mais. Que o consumo decresce porque as pessoas optam por refeições pré-preparadas. E que, por conseguinte, o mercado deve “ajustar-se” - sem apoios, sem incentivos fiscais, sem compreensão. A comparação com uma loja de tecidos foi evocada para ilustrar supostos “privilégios”. Cumpre-nos, pois, restituir as coisas à sua justa ordem.Num país que envelhece aceleradamente, são os restaurantes que asseguram a alimentação diária de milhares de cidadãos que já não dispõem de autonomia para cozinhar. São um suporte vital para estudantes, trabalhadores deslocados, famílias exaustas e para quem, como a minha amiga, atravessa momentos de fragilidade. Reduzir esta realidade a uma questão de “excesso de oferta” é, no mínimo, um erro crasso na leitura da dinâmica social.É também ignorar a dimensão cultural. A Gastronomia Portuguesa foi elevada a Bem Imaterial do Património Cultural de Portugal em 26 de julho de 2000. E quem guarda este património? Quem perpetua técnicas, produtos e receitas que nos conferem identidade? São os restaurantes. Cada porta que se fecha não encerra apenas um negócio: leva consigo memória, território e cultura. Leva vidas. A restauração é feita por famílias e para famílias, desempenhando um papel insubstituível na coesão social e na preservação das tradições locais.E depois há o turismo - atividade tantas vezes exaltada e da qual tanto depende o país. Não existe turismo robusto sem restauração pujante. É nos restaurantes que Portugal se apresenta, se explica e se oferece ao mundo. É ali que a hospitalidade se materializa. Falar de “excesso” num setor que sustenta milhares de micro e pequenas empresas - e que, em muitas regiões, constitui a única atividade económica relevante - é esquecer que sem restauração o interior não tem pulsação económica possível. Fechar restaurantes nesses territórios não é “deixar o mercado ajustar-se”, é acelerar o despovoamento.Outro argumento recorrente e falacioso diz respeito ao IVA. A análise sobre a reposição da taxa intermédia nos serviços de alimentação e em algumas bebidas, frequentemente incorre em equívocos que subestimam o impacto positivo dessa medida. Essa reposição não é um benefício efémero, mas uma ferramenta indispensável que permite aos empresários não apenas sobreviverem, mas prosperarem. Com essa margem, podem investir, contratar, aumentar salários e elevar a qualidade dos produtos e serviços. Ignorar esta função vital é desconsiderar o papel crucial que desempenha no fortalecimento da economia e na criação de um ambiente empresarial sustentável.A Hotrec, confederação europeia do setor, comprova-o inequivocamente: países que reduziram o IVA criaram mais emprego, registaram menos falências e acabaram por gerar mais receita fiscal indireta. Em Portugal, a reposição da taxa intermédia permitiu reforçar equipas e estabilizar negócios. Cada estabelecimento empregava, em média, 2,5 pessoas; em 2024 já empregava 3. Este aumento traduz-se em mais IRS, mais IRC, mais Contribuições Sociais - e menos Subsídios de Desemprego. Não é uma “borla”: é uma equação económica simples, com retorno comprovado.Hoje, a restauração enfrenta um cenário particularmente severo: cabaz alimentar inflacionado, rendas comerciais exorbitantes, energia em alta, salário mínimo quase duplicado (com justiça), carga fiscal pesada e créditos da pandemia ainda por liquidar. Falar de “subsídios” ou “ajudas” neste contexto revela profundo desconhecimento. Revela distância da realidade.A restauração portuguesa não é dominada por gigantes. É um universo constituído maioritariamente por microempresas familiares, que trabalham muito, arriscam muito e pedem muito pouco. Defender estas empresas não é defender interesses obscuros; é proteger um setor que alimenta, acolhe, cria emprego, preserva cultura e sustenta turismo.Ignorar a importância da restauração e tratá-la como um setor excessivo ou descartável é um erro que empobrece o país - na economia, no território, na cultura e na vida das pessoas.Porque um serviço essencial também se mede pelo impacto silencioso que exerce no quotidiano: alimentar quem não consegue cozinhar, acolher quem está longe de casa, preservar tradições e manter vivas comunidades inteiras.A restauração não é um luxo. É um serviço essencial que liga pessoas, territórios e culturas. Secretária-geral da AHRESP