A famosa distinção, devida a Max Weber, entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade continua plenamente atual. Designadamente na esfera política das relações internacionais, em que sempre temos de calibrar os valores e princípios que subscrevemos com as circunstâncias da sua aplicação e as consequências expectáveis. Ser ao mesmo tempo convicto, firme e determinado nas orientações fundamentais, e responsável, prudente, cauteloso e racional na interpretação das realidades concretas e no aproveitamento das possibilidades que elas abrem, eis o que dá sentido e eficácia à nossa ação, permitindo alcançar melhorias e aproximar-nos do que consideramos, a justo título, como ideal. Se o não fizermos, rapidamente naufragaremos nos rochedos que desprezámos, ou desataremos a praticar o duplo padrão de avaliação.Não serei eu, portanto, a recomendar qualquer rutura europeia com a sociedade e a democracia norte-americana. É essencial separar a natureza, objetivos e métodos de atuação da Administração Trump, e da parte do Congresso e do Partido Republicano que se lhe rendeu, do conjunto das instituições políticas e sociais dos Estados Unidos, cuja resistência deveria ser mais conhecida e apoiada na Europa, e justificaria, aliás, em Washington, mais intenso combate político por parte da liderança democrática. Por outro lado, os laços transatlânticos estão fundados na geografia, na história e em evidentes interesses comuns de segurança e equilíbrio mundial; o que justifica que se tente preservá-los, mesmo quando a outra parte os dinamita.Porém, tal como sabemos, nas questões de estratégia, que a paz se não consegue pela rendição, o apaziguamento ou a tergiversação, mas sim exibindo firmeza, força própria e capacidade de dissuasão, também o diálogo político com o governo presente dos Estados Unidos exige clareza nos termos e determinação na defesa da lei, da justiça e do respeito mútuo.Os nomes têm de ser dados às coisas. O culto da personalidade de que Donald Trump se rodeia, a omnipotência que se arroga, a submissão cega que impõe, põem-no ao nível dos grandes tiranos da história recente, como Estaline, Mao ou Mobutu. As perseguições judiciais que manda abrir, contra os adversários políticos ou o presidente da Reserva Federal, são os processos de Moscovo de agora, aos quais nem sequer faltam as insinuações de traição e pena capital. As execuções extrajudiciais, mesmo que de facínoras, são crime. O nome da operação na Venezuela é sequestro armado, seguido da obscena negociação com os sequazes da ditadura madurista sobre a posse do petróleo. As ameaças - diretas, repetidas - à soberania do México, da Colômbia, da Dinamarca, ou de usurpação dos recursos da Gronelândia, a óbvia concertação com a Rússia face à Ucrânia, o fomento aberto da extrema-direita na Europa, o apoio à limpeza étnica em Gaza (e a lista poderia continuar) violam os fundamentos mais básicos de uma ordem moral e política global.Não cheira demasiado, tudo isto, à década de 1930, à ascensão da barbárie? Não basta olhar para o modo como a agência norte-americana da imigração, o agora famoso ICE, se vem convertendo na milícia privada de Trump, alguma vez imaginaríamos ver, em ruas americanas, homens armados encapuzados intercetarem, revistarem e prenderem pessoas identificadas por perfil étnico e linguístico, sem mandado judicial?Nenhum exercício de realismo e cautela nos há de, pois, libertar da obrigação de condenar sem tibiezas o neoimperialismo e a plutocracia autoritária que assentaram arraiais em Washington. Ser responsável, procurando ser realista e prevenir males maiores, passa hoje por essa firme condenação.Mas não apenas. Tenho visto com preocupação os dirigentes europeus a ensaiarem um caminho digamos que intermédio. Como no respeitante à Gronelândia: se o pretexto de Trump, para exigir para si o território de outro - isto é, para roubá-lo - é a segurança do Ártico face às “ameaças” russa e chinesa, então vamos nós, os outros da NATO, militarizar mais a Gronelândia, mostrando que somos capazes de lhe prestar esse serviço. Como se o pretexto correspondesse à causa - quando é o próprio Trump a declarar a voracidade pelos recursos minerais - ,como se a nossa vassalagem lhe bastasse e como se não tivéssemos de raciocinar sistemática e inteligentemente sobre o futuro multipolar do Ártico.As minhas dúvidas (humildes e pessoais) vão mais além. A ideia de que, agora, a Europa tem de prestar culto apenas a Marte (esquecendo, não digo Vénus, mas Mercúrio), que tem de substituir a lógica da cooperação pela da confrontação, que tem de desviar recursos da ajuda internacional para o armamento, que tem, também ela, de reduzir o mundo a uma competição de tudo ou nada e de aceitar, mesmo que contrariada, que o direito internacional é uma ficção que passou; a ideia de que a Europa deve identificar, no hemisfério Sul, nas economias emergentes, ou (reparem por favor como eu digo) na economia chinesa e na cultura russa, apenas ou sobretudo ameaças: eis o que vai radicalmente contra as convicções que nos habituámos a proclamar.Ou estaremos sub-repticiamente a abandoná-las? A Europa deixará de preferir, como dizia Camões, o comércio à guerra? Deixará de apostar na eficácia dos entendimentos políticos e diplomáticos? Deixará de confiar na sua influência normativa? Deixará de ser multilateralista? Na tentativa vã de serenar o bárbaro, tornar-se-á ela mesma bárbara?Isso, sim, seria irresponsável. A responsabilidade maior que hoje temos é mesmo esta: honrar as convicções. Como (para dar apenas um exemplo, mas bem alto) Churchill fez, na hora que lhe coube. Ex-presidente da Assembleia da República e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros