Na semana passada, neste mesmo espaço, dediquei as linhas que pude com a informação de que dispunha à bambochata em que vivemos, a que, por ternura ou teimosia, insistimos em chamar Portugal. Debrucei-me sobre os gastos alarves em iluminação natalícia, fogos-de-artifício de réveillon, fantasias e batucadas carnavalescas e concertos e arraiais do nosso “querido mês de agosto”, sobretudo quando a pândega ocorre em vésperas de eleições. Só que a esta incorrigível casa de D.ª Constança, onde o Estado é simultaneamente pai tirano e filho pródigo, anfitrião faustoso e conviva folgazão, não faltam sucessivos sinais – e notícias – de que a anafa é um processo contínuo fora do qual já poucos se concebem e que ainda menos ousam questionar e desafiar. Isto porque, divulgada a última síntese estatística da Direção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP), constata-se que, a meio do ano em curso, o Estado tinha ultrapassado a inimaginável fasquia dos 760 mil funcionários, o que traduz um aumento de 1,5% em termos homólogos. A Administração Pública conta hoje com mais 110 mil trabalhadores do que tinha quando António Costa sucedeu a Pedro Passos Coelho, e a tendência de crescimento, ainda que com oscilações residuais, parece não ter fim. O que é feito daquela regrazinha de que por cada trabalhador que saísse só um entraria para os quadros da Administração? Acresce à incoerência e ao desrespeito pelo contribuinte o facto de, excetuando quem se alcandorou aos ombros da suprema entidade fora da qual quase nada germina ou sobrevive e o respetivo agregado familiar, nenhum português ter dado por este milagre da multiplicação de ofícios. O cidadão comum desloca-se a um centro de saúde ou a um hospital e, se não for por outra causa, acaba a espumar da boca de tanto se exasperar. Vai a uma repartição de Finanças e definha enquanto aguarda pela sua vez para entregar o enésimo impresso de questionável utilidade. Entra na câmara municipal à sexta-feira à tarde para obter de uma vez por todas aquele licenciamento pendente há quase tanto tempo quanto a construção do novo aeroporto de Lisboa e respondem-lhe que é melhor voltar na segunda – e se for agosto talvez seja avisado regressar só em setembro. Vá-se lá saber porquê, a escassos meses das autárquicas, foi na administração local que a festança foi mais rija. Face ao mesmo período de 2024, brotaram do chão dos paços dos concelhos e das juntas de freguesia quase cinco mil mangas de alpaca prontos a engrossar o exército do poder municipal, que, sublinhe-se, já conta com mais 30 mil efetivos do que em setembro de 2015. Ainda segundo dados da DGAEP, o ganho médio mensal (incluindo subsídios e prémios) dos funcionários públicos ultrapassa já os 2200 euros brutos, umas centenas de euros acima da média no setor privado, onde os aumentos continuam a ser mais lentos e parcimoniosos. Jamais defenderei uma economia de miséria alicerçada em trabalho remunerado ao nível do terceiro mundo, mas nenhum Estado, como qualquer organismo vivo que se quer sadio, pode prosperar após um processo de gavage auto-infligido. A esse propósito, tenho até algumas saudades do partido que não se deslumbrava com departamentos de eficiência à la Musk nem como motosserras à la Milei, mas que não se coibia de dizer que não a um país onde coabitam dois sistemas tão distintos e iníquos. A farra bem pode continuar dura; a ressaca, essa, é que vai ser o diabo. Lá chegaremos. Consultor de comunicação