“(...) se não conseguirmos sentar-nos à mesa, acabaremos por fazer parte do menu.” Mark Carney, PM do Canadá Esta expressão, esta ideia, constitui um breve fragmento do notável discurso do primeiro-ministro (PM) canadiano, no conclave de Davos, há alguns dias.Mark Carney abordou, com impressionante lucidez e elegância, o fim de uma era nas relações entre as nações. As velhas regras foram substituídas por uma nova força hegemónica. Baseada na desinformação desenfreada, no discurso do ódio contra aqueles que não são como nós, num revisionismo histórico permanente, no uso prepotente da força bruta, económica ou militar, para cumprir desígnios egoístas.Para isto, o PM canadiano formulou uma resposta clara. Feita, simultaneamente, pela assunção dos nossos valores e princípios democráticos, por um lado, e por outro, pelo aprofundamento de competências e estratégias verdadeiramente resolutivas. No interior do país e no concerto das nações. Bilateralismo e multilateralismo, seletivos.Sentados à mesa. Corajosamente, sem concessões. Compreendendo as causas de desesperanças e ressentimentos acumulados. Mas senhores das soluções que podem fazer a diferença no futuro.O que vale para uma nova ordem internacional, vale também para o interior das nações - dois mundos separados por uma linha de meridiana clareza.É importante discernir o lado certo.Há já várias décadas, Irving Janis (1918-1990) escreveu Victims of Groupthinking. Groupthinking é um fenómeno psicológico em que os membros de um grupo “fechado” se conformam com as experiências e o pensamento comuns. Que lhes limitam a capacidade de analisar criticamente a realidade que os rodeia e atender à sua evolução.Ronald Inglehart (1934 - 2021) foi um reputado investigador da Universidade de Michigan, que passou parte importante da sua carreira académica, dirigindo a World Values Survey. Uma das suas conclusões mais significativas: um determinado grau de “cultura de autoexpressão e afirmação” e de “valorização de processos deliberativos (racionais) é aquilo que cria as condições necessárias para que as elites dirigentes se disponham a fazer a transição de uma democracia formal para uma democracia real”.Isto é particularmente significativo no domínio da Saúde.Dificilmente se poderá esperar que um sistema social complexo beneficie adequadamente as pessoas, se estas não o compreenderem de todo.A propósito das pessoas. Há quase duas décadas o Parlamento aprovou uma “lei de garantias” sobre o acesso aos cuidados de saúde. Tem sido, desde essa altura, massivamente incumprida. O mesmo Parlamento adotou, em 2019, uma Carta para a Participação Pública na Saúde. Ninguém ouviu falar mais do assunto. Há mais de uma dezena de anos, a Fundação Calouste Gulbenkian promoveu um estudo aprofundado do sistema de Saúde português e das condições necessárias ao seu desenvolvimento, único no país. Sob um título significativo: Um Futuro para a Saúde - todos temos um papel a desempenhar. Foi apresentado no Parlamento e logo totalmente esquecido. O conhecimento deslizou à superfície do Poder. Não o impregnou.Continuamos a assistir ao de sempre. Reformas anunciadas, acompanhadas de preâmbulos de generalidades, sem uma fundamentação analítica minimamente aceitável, sem qualquer debate público esclarecedor, sem a participação dos principais atores sociais da Saúde no seu desenho e implementação. Em contraste com o que acontece noutras paragens, onde o Serviço Nacional de Saúde é, igualmente, o centro de gravidade do sistema de Saúde.Entretanto, entre nós, os preconceitos a favor das privatizações na Saúde, florescem.Precisamos de um Presidente da República com voz, a favor das pessoas, face a tanta anomalia.E o país necessita de um significativo movimento social e cultural que “sente as pessoas à mesa”. A Companhia das Pessoas.Companhia, como empreendimento, companhia como em “amor é companhia”.Somos todos Pensadores buscando uma mundivisão que nos ilumine e proteja os nossos descendentes.Analistas, porque capazes de descrever, com rigor, como estamos e para onde parecemos ir. Caminhantes, percorrendo, física e digitalmente, as comunidades locais, conhecendo dificuldades, estimulando a inovação que a todos beneficia, partilhando os sucessos de empreendedores locais que fazem a diferença. Com novos horizontes para o gestor ensimesmado com o seu fragmento.Companheiros-humanistas, religiosos ou laicos, que fazem companhia a quem precisa, nos troços mais difíceis e vulneráveis do caminho.Cronistas, porque compreendemos que o “universo não é feito de átomos, mas de histórias”, que entrelaçam episódios de todos-os-dias em construções com sentido - narrativas que explicam e aproximam.Queremos, no Palácio de Belém, alguém que partilhe o palco connosco.Não nos faz falta quem ocupe o palco todo, de manhã à noite. Com histórias que nunca aconteceram.Queremos alguém que faça parte da Companhia das Pessoas. Professor catedrático jubilado de Políticas de Saúde