A privatização do poder político nos EUA

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É conhecida a influência significativa que as grandes corporações exercem na política americana, financiando [muito caras] campanhas eleitorais e gastando fortunas em lóbi para aprovar leis que beneficiem os seus interesses.

Trump tem ido muito além da tradicional “proximidade” de grandes grupos económicos com a liderança política, bem visível na quantidade de multimilionários na sua equipa. A extinção do Departamento da Educação e a nomeação de empresários em conflitos de interesses para cargos-chave de supervisão económica e financeira - de que foi exemplo Elon Musk na liderança do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), que prometeu eliminar 2 biliões de despesa pública e acabou a cortar apenas 1 a 7 mil milhões de dólares, tendo o DOGE sido utilizado para eliminar ou cercear a atuação de várias agências governamentais que supervisionam avultados incentivos em projetos de empresas de Musk - revelam uma clara intenção de funcionalizar o funcionamento do Estado a interesses privados. O crescimento do setor de criptomoedas, catalisado pela criação de uma reserva governamental americana de Bitcoin e por investimentos cripto da Trump Organization, faz aumentar a quantidade de dinheiro privado relativamente ao dólar. O mesmo sucede com a acelerada criação de stablecoins.

O setor tecnológico cresce rapidamente, canibalizando cada vez mais capital e representando hoje c. 40% da capitalização bolsista americana. Esta concentração de capital vai a par do controlo de redes sociais e mídia por essas empresas e seus principais acionistas.

A privatização do poder também é notória na utilização do poder de indulto presidencial a criminosos de colarinho branco como Changpeng Zhao, um bilionário com ligações à família Trump em negócios de criptomoedas empresariais, e muitos outros que contribuíram com fundos para a arca eleitoral de Trump.

O pífio montante de despesa pública eliminada pelo DOGE, a legalização e incremento da utilização pelo Estado de criptomoedas, a influência de profissionais lobistas como a sua chefe de gabinete e a attorney general Pam Bondi, a instrumentalização política do Departamento de Justiça e do FBI, a crescente concentração de poder financeiro e nos mídia pelos tecno-oligarcas, a nomeação de empresários ou gestores em conflito de interesses para cargos-chave da política económica e agências de supervisão - tudo acrescido pela inexistência de efetivos checks & balances (decorrentes da subserviência da maioria republicana no Congresso e da lealdade do Supremo Tribunal) - mostram que o objetivo é concentrar poder num presidente [que governa em permanente abuso de legislação para situações de guerra ou Estados de Emergência], com subordinação do interesse público a fortes interesses privados, resultando numa gradual privatização do poder político americano.

Consultor financeiro e business developer

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