A política está um recreio

Publicado a
Atualizado a

Prepare-se para três parágrafos que parecem uma aula chatíssima: Lula da Silva, presidente do Brasil, esteve na última segunda-feira na 64.ª cimeira de chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, em Assunção.

Na reunião, entre outros temas, discutiu-se o trabalho da presidência do Paraguai em áreas como Educação, Saúde, Justiça, trabalho, cultura, Direitos Humanos, meio ambiente, turismo, desenvolvimento social e população indígena.

E a criação de comités, como o de áreas de controlo integrado nas fronteiras, além da assinatura do convénio com o Fundo Financeiro para Desenvolvimento da Bacia do Prata, entidade que apoia técnica e financeiramente a realização de estudos, projetos, programas, obras e iniciativas que promovam o desenvolvimento harmónico e a integração física dos países-membros.

Agora, prepare-se para cinco parágrafos de recreio: Javier Milei, presidente da Argentina, trocou a presença em Assunção, onde era aguardado, pela participação, em Balneário Camboriú, no Brasil, num evento da extrema-direita latino-americana em que foi homenageado por Jair Bolsonaro com a medalha “Imorrível, Imbrochável e Incomível”.

No encontro, repleto de terraplanistas na audiência, em vez de chefes de Estado, participaram Eduardo Bolsonaro, o parlamentar que se sentiu habilitado a ser embaixador nos EUA porque serviu numa hamburgueria do Colorado, ou Jorge Seif, o ex-secretário das Pescas de Bolsonaro, que pediu perdão compungido à base evangélica por ter participado num concerto da pecadora Madonna.

E Nikolas Ferreira, o deputado famoso por discursar na Câmara de cabeleira verde para constranger deputadas trans, ou Magno Malta, o senador vocalista de uma banda de pagode gospel que só depois de chegar à sede da ONU, em Nova Iorque, para denunciar a violação dos Direitos Humanos dos detidos nos ataques aos Três Poderes de 8 de janeiro percebeu que se enganara no caminho porque o Conselho dos Direitos Humanos do organismo é em Genebra.

Além de Mário Frias, o ex-secretário da Cultura de Bolsonaro, que chegou à secretaria depois de interpretar Escova, na novela juvenil Malhação, e cujo ponto alto no cargo foi a reunião com Urandir de Oliveira, o divulgador da teoria da existência de uma cidade perdida na Amazónia, chamada Ratanabá, capital do mundo há 450 milhões de anos, ou Julia Zanatta, deputada que se fotografou com uma T-shirt com uma mão de quatro dedos, aludindo a Lula, e a frase “vem cá tirá-la”, em inglês, enquanto segurava uma metralhadora.

Ou seja, Lula esteve numa reunião com ares universitários, ao lado de políticos moderados de centro-esquerda e centro-direita, cuja agenda, salvo raras exceções, era maçadora. E Milei num irrelevante, mas cómico, interlúdio infantil com a nata da estupidocracia brasileira.

Como nem vale a pena mencionar qual dos dois encontros movimentou mais as pueris redes sociais, a constatação que aqui se pretende deixar é que o debate de hoje já não é “esquerda-direita”, “conservadores-progressistas” ou “moderados-extremistas” mas “adultos versus crianças” - como tornar a aula tão apelativa como o recreio deixou de ser apenas um desafio dos professores do mundo inteiro para se tornar questão central dos políticos atuais.

Por alguma razão, dois dos líderes dos últimos anos que melhor souberam unir o sério ao descontraído, Barack Obama e Justin Trudeau, tinham experiência como professores.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt