A pílula do dia seguinte

Por estes dias lavam-se os cestos da vindima eleitoral. E uma das alegrias da terça-feira seguinte é reconhecermos que o bom da política é que todos são aprendizes até ao dia em que se reformam.

Se alguma originalidade os resultados demonstram é que de uma votação à outra um partido pode encadear os piores e os melhores marcos eleitorais sem pestanejar. O nosso mundo acelerou e só aqueles que sabem observar, temperar e agir por conta própria, sem se deixarem levar pela maré, podem saborear melhor a vitória. O oportunismo continua muito rentável na política de hoje: basta ao candidato exibir-se ao sol que mais aquece a opinião pública. Mas os eleitores, de vez em quando, dão uma sapatada na urna que devolve à democracia o seu carácter mais implacável. E isso também é muito bom.

Depois de várias semanas de confronto de palavras, emoções e, mais raramente, algumas ideias, o mais estimulante do domingo eleitoral foi visitar as assembleias de voto e, finalmente, colher uma sensação agradável, bem em contraste com a campanha. Os discursos e as propostas políticas foram esmagadoramente pobres de ideias e alguns confrontos atingiram níveis danosos para o prestígio profissional daqueles que confundem competição eleitoral com duelo de claques, com ecos em quase toda a comunicação social, cúmplice com a frivolidade.

Valha-nos, no entanto, que nos pátios das escolas e outros edifícios públicos os eleitores afluíram com razoável frescura, fervor e compostura, em convivência e colaboração para respeitar filas e evitar multidões indesejadas. Os portugueses, melhor, metade dos portugueses continuam a gostar de votar, no fundo para converter no contador numérico o seu estado de espírito geral, sem ter de esperar que muitas das promessas da campanha eleitoral se concretizem, coisa aliás bastante improvável se olharmos pelo retrovisor para observar a nossa história política. Sabemos todos que nos jogos, como em todos os combates, uns ganham e outros perdem. Na política habituámo-nos a embalar na curva. Todos reclamam ganhos, quando todos temos razões para concluir que todos perderam. Por cá, é um pouco, assim, como nos sopram os manos brasileiros: "Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava empatado." E é aí, claro, que entram os analistas para nos ditar as famosas previsões do dia seguinte.

É bom que mais de 180 mil portugueses, muitos deles nossos vizinhos, tenham decidido ir a jogo, nas freguesias e nos municípios. Tenhamos ou não votado, são eles os eleitos que vão governar nos próximos quatro anos em cada uma das nossas terras. Se não os escrutinarmos, somos cada um de nós quem verdadeiramente perde. Sobra, porém, desse domingo de outono doce, o travo amargo de mais umas eleições que sinalizam uma desvitalização progressiva da nossa democracia. Não se trata apenas de constatar que só um em cada dois portugueses foi votar, algo que justifica pelo menos um debate sério sobre o voto eletrónico ou o voto obrigatório. Acresce o empobrecimento de todo o processo, da linguagem utilizada ao formato dos debates, dos temas escolhidos às simbologias exibidas, dos insultos aos tabus. O circo político existiu sempre, é certo, mas hoje os atores transformaram-no numa espécie de coprodução mediático-política que toma conta de todo o palco, atrai fortemente o olhar fugaz das audiências, mas deixa fugir o essencial da vida democrática - a diversidade das propostas e dos valores e o modo como são protagonizados pelos diferentes candidatos.

Jornalista

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