A pandemia agravou a obesidade infantil?

Quando falamos de obesidade pediátrica e Covid-19 falamos efetivamente de duas pandemias, que se potenciam nas causas e nas consequências.

Se inicialmente apenas se podia especular sobre esta associação, atualmente vários estudos demonstram, particularmente desde o terceiro trimestre de 2020, um marcado aumento da prevalência da obesidade em idade pediátrica, atingindo em alguns estudos valores superiores a 40%.

Também se vai percebendo que aqueles que já tinham excesso de peso ou obesidade são os que apresentaram maior risco de agravamento do estado nutricional, assim como os adolescentes (10-17 anos), o sexo feminino e os que vivem em famílias com mais dificuldades económicas, são os grupos que demonstram maior vulnerabilidade.

É fácil perceber que a pandemia por Covid-19 veio virar de cabeça para baixo a vida das crianças e dos cuidadores, em todo o mundo. O fecho das escolas, o encerramento das atividades desportivas organizadas, a limitação da circulação, a dificuldade em manter regras e hábitos quando a família quase toda passa dias e dias em casa... resultam num aumento de tensão, em maior inatividade, na dificuldade em manter rotinas e regras e, consequentemente, numa maior probabilidade do foco emocional se concentrar na comida.

Inatividade, acrescida de falta de rotina e de motivação, aliada à facilidade de acesso regular e livre ao frigorífico ou ao armário durante todo o dia é fácil perceber que resultará num aumento de peso para toda a família, em particular para aqueles que já vêm com um excesso acumulado.

Pergunta-se: o que fazer? Em primeiro lugar não adiar a procura de orientação e acompanhamento médico, assumindo que o empenho na mudança deve ser de toda a família.

Contudo pode-se, desde já, apostar na mudança e começar a aplicar algumas regras básicas:

1) Deve aplicar um horário semanal para cada membro da família. As rotinas são fundamentais para o bem-estar emocional, para rentabilizar os compromissos e para criar motivação.

2) Deve contemplar nesse horário um mínimo de 30 minutos diários à semana e 60 minutos diários ao final de semana, de atividade ao ar livre, onde for possível na realidade de cada família (pode ser na varanda se o tempo for de chuva ou no jardim). A criança/adolescente deve obrigatoriamente, num registo diário, sair do seu "espaço quadrado" do interior da casa, e claro que acompanhada pelo menos por um cuidador, a quem esta recomendação também se aplica.

3) Para além do tempo de ecrã exigido para o cumprimento dos compromissos académicos (aulas), os écrans não devem ser utilizados durante o dia, sobretudo no intervalo do meio da manhã e da tarde. Ao final do dia, antes de jantar, poderá haver 20 a 30 minutos de ecrã com alguma vertente lúdica e/ou social.

4) As refeições acontecem apenas à mesa e no horário da refeição, devendo, se possível, envolver todos os membros da família que estejam em casa. Não deve ser permitido levar alimentos para outros compartimentos, nem petiscar fora das refeições.

5) Deve ser implementada atividade física pelo menos 2 a 3 vezes por semana. Procurar aplicações na internet com aulas online é uma hipótese e, caso seja possível, deve escolher-se uma aula que se adapte a toda a família, usando este momento como período de cumplicidade e descontração.

São conselhos aparentemente simples, mas por vezes difíceis de implementar, já que exigem disciplina e persistência. Mas essa é a função dos educadores, que neste novo paradigma de vida também estão a ser testados nas suas capacidades e limites, ao serem solicitados a manter os compromissos laborais (por vezes em casa) e, em simultâneo, dar apoio aos seus filhos.

Inicie estas pequenas grandes mudanças de imediato. Não espere para amanhã. E, sobretudo, procure ajuda profissional especializada o mais cedo possível. Não adie e não tenha receio de se deslocar ao hospital, onde estão garantidas todas as normas de segurança neste contexto de pandemia.

Sabe que quanto mais tempo durar o aumento de peso, mais difícil se torna de tratar. Sabe também que a obesidade, sendo ela própria uma doença que acontece em paralelo com um compromisso emocional (baixa autoestima, depressão) e físico (risco de diabetes, hipertensão, alteração das gorduras do sangue e fígado gordo entre outras), é uma das situações que comprovadamente agrava o prognóstico de uma infeção por Covid-19. Tal facto resulta de a obesidade ocorrer em conjunto com um estado de inflamação de baixo grau do nosso corpo, propiciando uma exacerbação da cascata da inflamação resultante da infeção por Covid-19.

Esta pandemia é uma fase difícil para todos nós, mas é nas situações desafiantes que temos de procurar a força da mudança, para bem dos nossos filhos.

Pediatra no Hospital CUF Porto e Professora convidada na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

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