Em 28 de Julho de 2024 houve uma eleição presidencial na Venezuela. Nessa eleição, Nicolás Maduro enfrentava o candidato da oposição unida, Edmundo González Urrutia; a líder da oposição, Maria Corina Machado, tinha sido declarada “inelegível”, numa das habituais manobras de manipulação dos órgãos não eleitos para impedir os candidatos populares de irem a jogo.A eleição foi considerada fraudulenta e, a começar pelos Estados Unidos de Biden, muitos países sul e centro-americanos e a maioria dos países da UE declararam Edmundo González vencedor. As contagens paralelas da oposição e dos observadores independentes deram-no a ganhar por 67% contra os 30% de Maduro, mas a Comissão Nacional de Eleições proclamou Maduro vencedor com 52%.A ditadura chavista, dita “bolivariana”, foi paulatinamente instalada a partir do poder, começando a perseguir, prender, torturar e matar os opositores. E a arruinar a economia, pelo que sete a oito milhões de venezuelanos “votaram com os pés”, emigrando.Foi neste quadro e contra este regime que, na noite de 2 para 3 de Janeiro, se deu a operação das forças especiais norte-americanas sobre Caracas, com bombardeamentos dissuasores de algumas posições militares. Não há detalhes da operação, mas Donald Trump, perito em reality shows, assegura-nos que “foi como um filme”. O certo é que, quando se acenderam as luzes, Maduro e a Primeira Dama, Cília Flores, já estavam a ser levados sob custódia para os Estados Unidos para enfrentarem uma acusação por delitos relacionados com o narcotráfico.Não é a primeira nem a segunda vez que narcos com posições políticas importantes nos seus países são capturados e entregues à justiça americana: além de Noriega, em Dezembro de 1989, Bubo Na Tchuto, um contra-almirante guineense, foi raptado em Abril de 2013 por elementos da DEA norte-americana, numa operação planeada a partir de Lisboa, e levado para os Estados Unidos onde foi condenado a quatro anos de prisão. A Guiné-Bissau tornou-se um narco-Estado, ponto de passagem importante na cadeia de distribuição do producto. De resto, diz-se que, pela sua associação com Maduro, o auto-deposto Sissoco Embaló fazia o pleno.O que é curioso é que quem passa a vida a lamentar as fraudes eleitorais, as autocracias, os fraudulentos que não saem do poder – do New York Times às suas múltiplas transladações para português –, evoque agora o “direito internacional que ninguém aplica” para se voltar a escandalizar com Trump, desta vez pelo que foi, essa sim, uma “operação militar especial” (três horas e zero baixas civis). E uma operação destinada a tirar um presidente eleito numa eleição fraudulenta, um tirano que arruinou o país, que prendeu, torturou e matou milhares de adversários políticos e que se associou aos barões da droga, aos terroristas da Colômbia, inundando os Estados Unidos com o mortífero “producto”.Maria Corina Machado lembra aos escandalizados com a invasão que a Venezuela já tinha sido invadida – por terroristas colombianos, por polícias cubanos, por narcos de todo o Caribe que, juntos com a elite do chavismo, ajudaram a manter e a perpetuar a tirania local. Tirania radical nos fins e nos meios e politicamente incompetente na economia e no bem-estar social, como todas as tiranias comunistas.A operação foi impecável, embora seja sempre perigoso pôr em causa as fronteiras e as nações. Enfim, o impulso está dado, convém agora que os venezuelanos acabem o trabalho.Politólogo e escritor. O autor escreve de acordo com a antiga ortografia