Tenho muitas dúvidas sobre as capacidades futebolísticas, e outras, do presidente Donald Trump, sobretudo agora que começou o Ano Novo com dois autogolos.O primeiro autogolo foi a intervenção na Venezuela. Teve como resultado a deterioração da imagem internacional do seu país, e deu de bandeja pontos à Rússia e à China.A reunião do Conselho de Segurança da ONU revelou a gravidade da aventura norte-americana na Venezuela. O secretário-geral, que por prudência não participou pessoalmente na reunião, fez ler uma declaração que sublinhava que a soberania, a independência política e a integridade territorial da Venezuela haviam sido violadas. Nessa comunicação referiu-se à operação militar norte-americana como sendo um “precedente perigoso”, o que pareceu estranho a vários governos e analistas, tendo em conta que a história do continente latino-americano está repleta de intervenções semelhantes - os historiadores da Universidade de Harvard fazem o inventário de mais de 40 ruturas extraconstitucionais organizadas com o apoio ou por instigação de Washington. A mais conhecida aconteceu em 1973, quando o presidente Salvador Allende do Chile foi assassinado graças à habilidade organizativa da CIA.A grande diferença entre a intervenção militar de há dias e as anteriores reside no reconhecimento pelo presidente Trump que a atual visou a usurpação dos recursos petrolíferos do país agredido. As ingerências passadas eram apresentadas com outro nível de subtileza, sem referências diretas a expropriações ou pilhagens.Registo uma nota adicional sobre a comunicação de Guterres. Muitos nas Nações Unidas compararam a comunicação que fizera após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 com esta agora, levada a cabo pelos EUA. Guterres condenou diretamente a Rússia, e esteve, para tal, ele próprio presente na reunião do Conselho de Segurança. E dirigiu-se sem ambiguidades a Vladimir Putin, em nome da paz e da ética política. No caso dos EUA, utilizou apenas argumentos genéricos sobre a ordem internacional e a violação da Carta, sem mencionar o nome de Trump. Fica o registo e um convite à reflexão.O primeiro autogolo foi favorável à Federação Russa e à China. A referência repetidamente feita em Washington à teoria das esferas de influência tornou mais difícil condenar a invasão russa contra a Ucrânia. Alguém que circula nos corredores do Kremlin enviou-me uma mensagem provocatória, embora com alguma piada e uma pitada de diplomacia, no estilo aprendido nos antigos manuais soviéticos. Dizia-me que tinha a certeza de que eu iria condenar, na crónica desta semana, a agressão injustificada contra o poder venezuelano e exigir que a União Europeia impusesse sanções contra o mandante dos raptos. Um brincalhão. Dir-se-ia que os dirigentes russos se sentem felizes e contentes com o que aconteceu na Venezuela.Quanto à China, que foi o país de facto mais indiretamente visado - Washington não quer que a China ganhe presença na área de influência que os norte-americanos consideram ser a sua -, houve uma espécie de validação das suas pretensões relativas a Taiwan. Isto não quer dizer que Pequim pense lançar uma operação militar no futuro mais próximo contra Taipé. A China sabe que uma ofensiva desse género, a acontecer, terá custos elevados. Mas recebeu agora da Administração Trump a indicação que pode aumentar a pressão político-militar sobre a ilha. E usar uma linguagem mais bélica, o que aliás está a acontecer esta semana, depois de uma deputada taiwanesa ter proposto uma alteração da “Lei que Regula as Relações entre os Povos da Área de Taiwan e da Área Continental”, uma lei que foi adotada por Taipé em 1992. Segundo a proposta, o diploma passaria a ser designado como a “Lei das Relações entre Taiwan e a República Popular da China”. O novo nome e conteúdo são vistos por Beijing como mais uma tentativa de separar as duas partes e de promover a independência de Taiwan, algo que é absolutamente inaceitável para os dirigentes chineses.O segundo autogolo resultou das declarações de Trump e de gente à sua volta, como Stephen Miller, um falcão que desempenha as funções de chefe de gabinete adjunto da Casa Branca, sobre a Gronelândia. Trump prepara-se para anexar a Gronelândia, que é um território do espaço europeu, através da sua ligação à Dinamarca. A razão invocada - criar uma barreira de segurança contra a Rússia e a China - não faz sentido. Os EUA têm uma base militar na Gronelândia e podem contar com toda a cooperação dinamarquesa. Note-se que a base chegou, nos tempos da Guerra Fria, a alojar cerca de 10 mil militares americanos. Agora, terá à volta de 150. Esta evolução não revela grandes receios geopolíticos por parte dos EUA. Sem esquecer que existem vários tratados entre os EUA e a Dinamarca que reconhecem a soberania dinamarquesa no que respeita à Gronelândia.Trump tem os olhos fixados nas riquezas naturais do território, nos corredores marítimos que as alterações climáticas irão tornar navegáveis na zona do Ártico, no espaço aéreo que a Gronelândia controla, que tem um enorme valor estratégico, e na História - quer ver o seu nome acrescentado à lista dos presidentes que fizeram crescer a área territorial americana.Também deveria pensar no impacto que a anexação terá sobre o futuro da NATO. Mas para ele, a NATO serve para comprar armamento à indústria americana. E isso continuará a acontecer durante muitos anos, quer haja NATO quer não. Os europeus são clientes cativos. A nova realidade é evidente: nos nossos dias, os negócios e a força bruta estão a triunfar face à diplomacia e à ordem internacional, graças a Trump, a Putin e a outros mais.Conselheiro em Segurança Internacional.Ex-secretário-geral-adjunto da ONU