A noivinha do Aristides

Quem se lembra do "senhor do adeus", figura lisboeta que, para matar o tédio, acenava aos automóveis no meio da rua em troca de saudações? Pois o Brasil também já tem um "senhor do adeus". Chama-se Jair e, como está entediado por que o país a que preside não tem nenhum problema económico ou sanitário grave, decidiu passar a manhã de segunda-feira à beira da Via Dutra, a autoestrada que liga o Rio de Janeiro a São Paulo, a dizer adeus aos carros.

A meio da atividade, o nosso Mister Bean dos trópicos foi ofendido por uma senhora sentada no banco do passageiro.

Imediatamente, mandou a polícia pará-la, detê-la e conduzi-la à esquadra mais próxima. Os senhores guardas, obedientes, decidiram então, na sua gíria muito própria, "enquadrar a autora do insulto nas cominações legais". Segundo eles, a ação foi efetuada "mediante determinação do próprio presidente", uma vez que a senhora terá gritado "palavras de calão direcionadas a ele, mais especificamente, berrado "Bolsonaro filho da p..." em atitude de tamanho desrespeito".

Ouvidos pelo jornal Folha de S. Paulo, especialistas em direito penal brasileiro acharam a ação policial "atípica e abusiva". "Insultar não é a forma mais civilizada de conviver mas não deve levar alguém a uma esquadra pela prática de crime", disse a jurista Marina Coelho de Araújo, para quem acresce que "uma figura pública deve aceitar críticas e descontentamentos sob pena de utilizar o direito penal de forma autoritária e ilegítima".

Não fossem a imprensa e as redes sociais, o caso terminaria aqui, como sequela da decisão presidencial de março de 2019, apenas dois meses após a posse, de exonerar o funcionário público que o havia multado sete anos antes por pescar numa zona ilegal.

Mas a imprensa descobriu que, além de "Bolsonaro filho da p...", a senhora soltou a expressão "noivinha do Aristides". E foi esse insulto enigmático e não o outro, tão comum, que tirou o ocupante do Planalto do sério.

A cena, registe-se, aconteceu em Resende, a cidade fluminense onde o cadete Bolsonaro fez o curso da Academia Militar. E circulam rumores por lá de que Jair tinha relação próxima com um instrutor de judo, de nome Aristides, razão da alcunha homofóbica (alerta karma) que se tornou - e aqui entra o rolo compressor das redes sociais - um dos assuntos mais comentados do dia no Brasil (e, por extensão, no mundo).

É o sobejamente conhecido "efeito Barbra Streisand": em 2005, a atriz processou o fotógrafo que escancarou na internet a sua mansão em Malibu. Antes do processo, a foto tinha sido partilhada seis vezes, duas delas por advogados dela, depois da ação chegou às telas de 420 mil norte-americanos.
Jair não faz ideia do que seja o "efeito Streisand", lá longe na Califórnia, mas tinha a obrigação de conhecer o "efeito Micheque", ocorrido na sua própria casa. No ano passado, Michelle Bolsonaro apresentou uma queixa-crime contra a banda Detonautas, que havia composto uma música sobre os 21 cheques depositados na conta da primeira-dama por Fabrício Queiroz, o operacional de um esquema de corrupção da família presidencial, a que deu o nome de "Micheque". Em vez de silenciar a música e o título, Michelle popularizou-os.

E hoje em dia toda a gente sabe quem é a Micheque - é aquela senhora casada com a Noivinha do Aristides.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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