A mudança

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"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, escreveu Camões. Mais de quatro séculos depois, Bob Dylon observava que “The times they are a-changing”. E se a lírica do nosso poeta maior é neutra relativamente à mudança - pode ser boa ou má -, já os versos do poeta trovador refletem uma imagem positiva desta.

A alternativa a mudar é, simplesmente, não mudar, diria o óbvio Monsieur de la Palisse. Não é melhor, nem pior, do que mudar.

Mas a verdade é que o tempo foi reforçando o sentido positivo da mudança, tornada quase sempre desejável, relevante, necessária, se não mesmo inevitável: nos dias de hoje mudar é sempre bom, ou mesmo ótimo. E, claro, sempre melhor, muito melhor, do que não mudar!

Ai do candidato a eleições que diga que pretende ser eleito para garantir que nada, ou pouco, mude! Sobre ele se abaterá o previsível desastre nas urnas, precedido do massacre nos meios de comunicação social!

Ao invés, o candidato que anuncie que quer mudar “tudo” será aplaudido e estará, provavelmente, a caminho de uma eleição bem-sucedida. Ninguém verdadeiramente acreditará nele, mas a crítica que lhe fosse dirigida, denunciando a ideia de mudança total - por ser, além de uma impossibilidade, uma tolice -, seria gravada com o ferrete do conservadorismo, do imobilismo ou do reacionarismo e prudentemente silenciada.

Aqueles que se batem pela mudança raramente esclarecem aquilo que querem mudar, qual o sentido da mudança e o que entendem dever ser feito para a concretizar. Tanto melhor. Quanto mais vagos e menos explícitos forem, maior apoio obtêm daqueles que não sabem para onde querem ir, mas sabem que não querem “ir por aí”, como escreveu Régio, e também não querem - ou dizem não querer - ficar onde estão, como cantou Variações.

Contra a certeza, amiúde perturbadora, incómoda, inquietante, do presente, levanta-se um coro, quase sempre desafinado, de possibilidades, de miragens, de fantasias, de sonhos, incerto e instável, mas, por isso mesmo, sedutor. Quando aquilo que experimentamos nos deixa um amargo na alma, corremos atrás da incerteza, que foge à nossa frente, transformada em quimera. Mais vale aquilo que pode ser bom do que aquilo é mau!

Será? Aquilo que hoje consideramos mau, esse presente carregado de amargura, desilusões e fracassos foi no passado, quantas vezes recente, um futuro risonho, repleto de esperanças. Nem todas se concretizaram, mas umas quantas converteram-se em realidade.

Algumas coisas mudaram, para melhor. Outras marcaram passo, sob o peso da nossa falta de iniciativa, de coragem, de empenho ou de persistência. Outras ainda, regrediram.

O apelo insistente à mudança, sem nada mais dizer, é uma fábula. Com uma ligeira adaptação da conhecida história do velho, do rapaz e do burro, acabaremos todos com o burro às costas!

Antigo presidente do Tribunal Constitucional

e subscritor do Manifesto 50+50 pela Reforma da Justiça.

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