A máscara caiu: da dissimulação ao facto consumado

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Em novembro passado, escrevi uma coluna em que defendi que a suposta retração dos EUA era, na verdade, uma geopolítica da dissimulação. Sob o véu da fadiga imperial, Washington reorganizava a sua hegemonia. Hoje, essa suspeita é uma certeza: a máscara caiu. A recente captura de Nicolás Maduro, o incidente com o petroleiro Marinera e a posição face à Gronelândia e ao Irão confirmam que não há uma retirada, mas uma ofensiva de suserania absoluta que redefine as regras do jogo global.

A extração de Maduro para julgamento em Nova Iorque terá marcado o fim da autocontenção normativa. Washington abdicou da estética de garante da ordem liberal para assumir o papel de executor. A mensagem não se esgotou em Caracas: ao submeter a região a bloqueios e sanções, os EUA sinalizam que a esta interpretação da Doutrina Monroe não admite ambiguidades, preconizando a eliminação de qualquer vestígio de influência russa ou chinesa no hemisfério Ocidental.

No Médio Oriente, a pretensa retirada deu lugar a um controlo intenso. Nada acontecerá em Gaza sem a tutela americana, enquanto a influência sobre a Arábia Saudita e o Qatar isola o Irão. A presença reforçada na Síria e no Iraque fragmenta o corredor xiita, deixando Teerão perante uma geopolítica da exaustão. Vulnerável após o precedente venezuelano, o regime iraniano percebe que o apoio do Leste é um seguro de vida com data de validade perante a supremacia operacional de Washington.

A gestão da Ucrânia e de Taiwan revela o auge da resistência instrumental. Na Ucrânia, a aproximação americana à Coalition of the Willing é uma armadilha transacional: Washington usa o brio europeu como travão conveniente, prometendo paz a Moscovo enquanto culpa a intransigência dos Aliados para não ceder no terreno.

O ataque ao Marinera, antecipando a proteção naval russa e expondo a sua vulnerabilidade logística, provou que a tentativa de dissuasão de Moscovo no mar foi irrelevante.

Em Taiwan, a lógica é idêntica, mas sem cortesia diplomática. Taipé é o aliado-pivô que não precisa de ser convencido, apenas armado. Ao fortalecer o arco de conflitos de baixa intensidade com o Japão, Coreia do Sul e Filipinas, os EUA criam uma barreira que a China não consegue romper sem uma guerra total para a qual não está preparada. Washington utiliza os seus aliados como escudo da sua hegemonia, testando a determinação e capacidade de Pequim.

A crise na Groenlândia fecha este arco de coação. A pretensão de ocupação sob o pretexto da ameaça chinesa é uma ficção sob a capa de realismo transacional. Trata-se, na prática, de uma cerca preventiva, para sinalizar que a ilha é zona de influência exclusiva dos EUA, que força a Dinamarca a concessões militares e mineiras, sob pena de ver o seu território convertido num protetorado estratégico.

Fica demonstrado que a soberania de um aliado histórico é anulável perante a necessidade operacional de Washington. Se o direito internacional já era frágil, tornou-se agora um cadáver, substituído por um sistema de exceções administrado por quem tem força para as impor.

O que escrevi em novembro confirmou-se. Os EUA não estão a sair de cena; libertaram-se apenas do figurino de polícia global para assumirem o papel de predador-alfa.

Já não há necessidade de parecer moralmente superior perante uma comunidade internacional incapaz de constranger.

Do Ártico à Venezuela, do Irão a Taiwan, a república americana parece querer transmutar-se num império que, ao abdicar das instituições que ajudou a criar, se tornou exponencialmente mais eficaz e perigoso.

A questão já não é quem tem razão, mas sim como sobreviver para não se tornar a próxima presa.

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

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