A mirífica AGI

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A Inteligência Artificial geral (AGI) - que pode ser considerada o ponto em que uma máquina consegue realizar qualquer tarefa intelectual que um humano faz - é o “Santo Graal” de Silicon Valley. Para a maioria dos líderes de empresas desenvolvendo Inteligência Artificial (AI), AGI é a solução para os problemas do mundo. Sam Altman, CEO da OpenAI, é um dos seus maiores entusiastas, descrevendo a AGI como a ferramenta mais potente a criar pela Humanidade, capaz de elevar drasticamente o padrão de vida das pessoas e resolver crises climáticas ou doenças. Todavia, também já afirmou publicamente que “o pior caso é o fim de tudo”, defendendo por isso a criação de uma entidade de governança global para monitorizar sistemas de AGI, semelhante à supervisão da energia nuclear. Para Demis Hassabis, CEO da Google DeepMind, a AGI será o “acelerador definitivo” da ciência, focando-se em como a AI pode descobrir novos materiais, medicamentos e compreender a Física fundamental de formas que os humanos por si só não conseguem. Jensen Huang, CEO da Nvidia, vê a AGI como a base para a “fábrica de AI”, onde agentes AI se melhoram e recriam autonomamente, transformando todas as indústrias produtivas.

Contudo, em sentido contrário, Yann LeCun, cientista-chefe de AI da Meta, sustenta que estamos muito longe da AGI porque os modelos atuais (LLM) não entendem a realidade física, não têm memória persistente e não conseguem planear. A transição dos modelos atuais (conhecidos como Narrow AI) para a AGI representa o salto de uma ferramenta que “prevê o próximo passo” para um agente que “compreende e raciocina”.

Os modelos atuais de AI generativa, como o ChatGPT ou o Gemini, baseiam-se em probabilidade estatística, são muito bons a prever a próxima palavra numa sequência com base em padrões de triliões de dados. Funcionam por uma espécie de “intuição estatística”. Se os dados de treino não contiverem a lógica de um problema novo, o modelo pode “alucinar”.

Espera-se que a AGI possua raciocínio dedutivo e sistémico, indo além do reconhecimento de padrões, mas entendendo as regras subjacentes (físicas, matemáticas ou lógicas) para resolver problemas que nunca encontrou antes. LeCun acha que estamos longe de tal evento. Até há poucos anos, a estimativa era que talvez existisse AGI em 2060. A data do evento tem vindo a ser diminuída, com os prazos a serem reduzidos à medida que se levantam fundos massivos para a sua criação.

Os gestores das tecnológicas americanas que levantam biliões de dólares para desenvolvimento da AGI prometem amanhãs que cantam para toda a Humanidade. Porém, chegou o momento de questionar se é correto considerar inevitável a criação de AGI. A cada ano que passa, mais investidores irão questionar se a mirífica AGI não será mesmo do domínio da fantasia. Esperemos que, entretanto, esta quimera não provoque uma crise nos mercados financeiros.

Consultor financeiro e business developer

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