A minoria absoluta de António Costa

O valor mais alto de inflação desde 1993. A maior queda do salário médio desde 2012, em plena troika. Um aumento inevitável das prestações do crédito à habitação. Uma acentuada queda do poder de compra. Uma subida dos juros com consequências sérias no serviço da dívida pública, por mais que a inflação a faça reduzir no curto prazo. Os encargos mensais das famílias a dispararem, num país onde a carga fiscal é elevada e a capacidade de poupança residual. O regresso da recessão, à espreita.

No espaço de quatro meses, o programa eleitoral com que o Partido Socialista conquistou uma surpreendente maioria absoluta, pura e simplesmente, morreu. Por mais francas e nobres que fossem as suas metas - e sincero o seu discurso -, o país "dos salários baixos", "da perda de rendimentos", "do alarme social" regressou. Está aqui. A página que ia ser virada voltou para atrás.

Mesmo que a inflação seja episódica, terá efeito nas condições de futuros empréstimos, tanto privados como do Estado. Mesmo que esta beneficie a receita fiscal, tal dificilmente será suficiente para garantir um equilíbrio entre orçamento e responsabilidade social nos próximos dois anos.

Será um tempo de decisões difíceis e, com elas, de contestação. Politicamente, depois da crise dos fogos, da crise na "geringonça" e da crise da pandemia, o primeiro-ministro enfrentará um desafio que se estende para lá da sua experiência. A sua supremacia parlamentar - a maioria absoluta - não é a bênção com que muitos a olham. Talvez como nenhum outro antes de si, António Costa estará a governar numa conjuntura virtualmente oposta àquela para a que foi eleito. Não que sinais de inflação já não despontassem no início do ano ou que a ordem internacional não estivesse já sobre pressão. Não é esse o ponto.

O ponto é que a massa eleitoral que se concentrou em janeiro passado para um conjunto de três propósitos - reeleger Costa, afastar o Chega da governação e por termo ao impasse entre as esquerdas - é exatamente o mesmo eleitorado que não perdoa à direita "os salários baixos", "a perda de rendimentos" e "o alarme social" do seu período no poder. Sendo impossível a António Costa, e a qualquer outro, escapar a um contexto que é global, o primeiro-ministro encontrar-se-á na peculiar posição de estar a governar contra aqueles que o escolheram para governar. Será absoluto, sim, mas absolutamente minoritário dentro de uma maioria substancialmente maior do que a sua: a dos descontentes, da esquerda à direita, com a situação em que o país estará.

Desta feita, mais do que isso, não contará com a complacência da esquerda, ávida de se mostrar ao fim de legislatura e meia a viabilizar tratados orçamentais e um governo europeísta, nem tão-pouco com a ineficiência da direita, finalmente livre de Rui Rio. O Presidente, como se ouviu na tomada de posse e nos remoques aos cortes na Defesa Nacional, transitou dos afetos para as achegas. Costa, que é um verdadeiro político, começará agora uma segunda vida enquanto tal.

Não será tão fácil.

Nem para ele nem para nós.


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