A migração tokenizada dos mercados financeiros para a blockchain

Publicado a

A tokenização de ativos tradicionais financeiros, mas também dos ativos do mundo real está em curso. Apesar de, representar uma fatia ainda pouco relevante do mercado, 2025 foi um ano de crescimento significativo, e existem projeções que indicam que a tokenização de ativos cresça mais de 80 vezes próximos 10 anos. As stablecoins, ativo digital que assenta num colateral cotado no mercado financeiro tradicional como o dólar, têm liderado esta migração e representam cerca de 90% dos montantes totais. Contudo existem duas áreas que poderão registar grande relevância nesta transição. Os tradicionais ativos que já são transacionados nos mercados financeiros internacionais, e os ativos não-convencionais ou do mundo real (RWA’s) que tendem a ser ilíquidos e concentrados, como o imobiliário, arte e outros colecionáveis, ou de algumas matérias-primas não convencionais, incluindo créditos de carbono.

A tokenização dos ativos do mundo real permite desbloquear novas formas de monetizar ativos ilíquidos, cria mercados que não existiam que são eficientes e são uma efetiva transformação do que é a tradicional visão da gestão de ativos. Nestes mercados digitais, um colecionador pode tokenizar a sua coleção rara e fracionar a propriedade para compradores globais, mantendo parte da posse e obtendo liquidez. Esta nova forma de securitização digital aumenta a transparência, facilita a validação dos colaterais e amplia o acesso ao investimento através do processo de fracionamento (criando uma espécie digital de unidades de participação), atraindo participantes que, até agora, estavam afastados por limitações de liquidez ou exigências regulatórias.

Ao mesmo tempo, também as classes mais convencionais estão em processo de serem tokenizados para os mercados de ativos digitais. O mercado global de ações e obrigações ultrapassa atualmente os 250 mil milhões de dólares. Embora o sistema financeiro atual seja funcional, sofre com infraestruturas que já estão ultrapassadas, múltiplos intermediários, custos elevados e processos de liquidação (settlement) lentos. A blockchain oferece uma infraestrutura partilhada, mais eficiente, com liquidação instantânea e acesso a novos produtos financeiros. Estima-se que, até 2035, entre 4 e 5 biliões de dólares passem a estar representados em valores mobiliários digitais. Os títulos de dívida deverão liderar esta adoção no curto prazo (o montante de títulos tokenizados subiu 2,3X de 848 milhões em 2023 para 3 mil milhões em 2024), enquanto o progresso nas ações será gradual, devido à já elevada eficiência dos mercados desenvolvidos, embora exista espaço relevante em mercados emergentes.

Esta migração dos mercados financeiros para a blockchain é inevitável e promete, até 2035, transformar profundamente a interação com os investidores. O objetivo final é chegar a uma infraestrutura financeira totalmente digital, acessível globalmente, em total permanência (24 horas, 7dias por semana, 365 dias por ano), com ferramentas como os smart contracts e blockchain a permitirem produtos que são impossíveis em sistemas tradicionais: cupões diários, critérios ESG embutido, fundos personalizados por investidor, distribuição inteligente e automatizada. A transição será um processo gradual, exigindo maturidade regulatória e tecnológica - afinal, o sistema antigo ainda precisa de continuar a funcionar. Mas é um processo que está em curso já, e que deverá ganhar maior ímpeto em 2026.

Diário de Notícias
www.dn.pt