A maldição da geografia e Portugal

Algumas correntes da geopolítica argumentam que a geografia física e humana condiciona implacavelmente o devir dos povos e o sistema internacional. É uma visão determinista pura e dura.

Se aplicarmos esta visão, numa perspetiva histórica de longo prazo, à faixa ocidental da Península Ibéria, em que se situa o nosso país, vemos que tem sido invariavelmente província / colonia periférica de impérios distantes.

Aqui se estabeleceram entrepostos fenícios, uma potência do Médio Oriente, se constituiu uma província periférica do Império Romano, foi parte do Reino Visigodo com sede em Toledo e uma colónia distante do Império Árabe.

Como zona periférica subordinada nunca se pôde desenvolver plenamente, sempre foi uma zona pobre, uma zona de fronteira, de lutas e guerras, uma zona de sobreposição de povos, uma zona multicultural.

No Império Romano a Península foi das primeiras a ser abandonada, entregue às invasões barbaras, território onde se digladiaram suevos, alanos e visigodos. Depois quando os árabes entraram em declínio palco igualmente de guerra de conquista, massacres e destruição de uma civilização.

Na passagem do século XV para o XVI esta periferia, ganhou uma centralidade muito provisória, expandiu-se e criou novas periferias para as potências europeias centrais, Reino Unido, Holanda, França.

A partir do século XIX, com as invasões francesas e as guerras civis, tornou-se um protetorado britânico e hoje é um Estado periférico numa União Europeia dominada pelos países da Europa Central com sede em Berlim, mas ocupada, a Alemanha, militarmente pelos Estados Unidos. Uma dupla periferia.

O determinismo geopolítico, se bem que subsistindo, foi desafiado e contestado e outras teorias surgiram que o negam no todo em parte. Inúmeros exemplos podem ser dados em contraposição a este determinismo. A própria existência de Portugal, que não tem fronteiras naturais com a Espanha, pode ser apontado como ilustração do falhanço da explicação geopolítica determinística.

A posição geográfica é inegavelmente importante. A História também o é. Mas acima de tudo é a vontade, a determinação dos povos e a capacidade estratégica das lideranças em se posicionar nas macrotendências do seu tempo que molda o Futuro. Infelizmente em Portugal temos tido uma grande falta destes três fatores.

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